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Dicionário de tradutores literários no Brasil


Pedro Gonzaga

Perfil | Excertos de traduções | Bibliografia

Pedro Gonzaga nasceu em Porto Alegre em 1977, é tradutor, músico, escritor e radialista. Graduou-se em 1998 em Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e possui mestrado em Letras pela mesma Universidade (2008). Em 2011 publicou Última temporada, seu primeiro livro de poemas, tendo anteriormente publicado Cidade Fechada (2004) e Dois andares acima (2007), ambos os livros de contos.

Gonzaga traduz principalmente do inglês, sendo atualmente um dos principais tradutores no Brasil do escritor norte-americano Charles Bukowski, de quem traduziu sete obras. Pedro Gonzaga é também professor de latim, além de apresentar o programa de jazz e MPB “Música para adultos” na Rádio Elétrica de Porto Alegre. É membro da banda de jazz Chico Trio, onde toca saxofone.

Verbete publicado em 27 de February de 2013 por:
Anderson da Costa
Marie-Hélène Catherine Torres

Excertos de traduções

Excerto de Misto quente, de Charles Bukowski. Tradução de Pedro Gonzaga.

The first thing I remember is being under something. It was a table, I saw a table leg, I saw the legs of the people, and a portion of the tablecloth hanging down. It was dark under there, I liked being under there. It must have been in Germany. I must have been between one and two years old. It was 1922. I felt good under the table. Nobody seemed to know that I was there. There was sunlight upon the rug and on the legs of the people. I liked the sunlight. The legs of the people were not interesting, not like the tablecloth which hung down, not like the table leg, not like the sunlight.

A primeira coisa de que me lembro é de estar debaixo de alguma coisa. Era uma mesa, eu via uma das pernas de madeira, via as pernas das pessoas e um tanto da toalha que pendia no ar. Era escuro lá embaixo, eu gostava de ficar por ali. Isto deve ter sido na Alemanha. Eu devia ter um ou dois anos de idade. Era 1922. Eu me sentia bem debaixo da mesa. Ninguém parecia saber onde eu estava. A luz do sol escorria sobre o tapete, sobre as pernas das pessoas. A luz do sol me agradava. As pernas das pessoas eram desinteressantes, diferentemente da toalha que pendia da mesa, diferentemente da perna da mesa, da luz do sol.

Then there is nothing . . . then a Christmas tree. Candles. Bird ornaments: birds with small berry branches in their beaks. A star. Two large people fighting, screaming. People eating, always people eating. I ate too. My spoon was bent so that if I wanted to eat I had to pick the spoon up with my right hand. If I picked it up with my left hand, the spoon bent away from my mouth. I wanted to pick the spoon up with my left hand.

Então não havia nada... depois uma árvore de Natal. Velas. Pássaros ornamentais: pássaros com pequenos ramos apinhados de frutinhas em seus bicos. Uma estrela. Duas pessoas enormes lutando, gritando. Pessoas comendo, pessoas sempre comendo. Eu também comia. Minha colher era curva, assim, se eu quisesse comer, precisava pegá-la com a mão direita. Se eu pegasse com a esquerda, o alimento se afastava da minha boca. Eu queria pegar a colher com minha mão esquerda.

Two people: one larger with curly hair, a big nose, a big mouth, much eyebrow; the larger person always seeming to be angry, often screaming; the smaller person quiet, round of face, paler, with large eyes. I was afraid of both of them. Sometimes there was a third, a fat one who wore dresses with lace at the throat. She wore a large brooch, and had many warts on her face with little hairs growing out of them. "Emily," they called her. These people didn't seem happy together. Emily was the grandmother, my father's mother. My father's name was "Henry." My mother's name was "Katherine." I never spoke to them by name. I was "Henry, Jr." These people spoke German most of the time and in the beginning I did too.

Duas pessoas: uma maior com cabelo crespo, um narigão, uma boca grande, sobrancelhas cerradas; a pessoa maior sempre parecia estar furiosa, quando não aos berros; a pessoa menor era quieta, mais pálida, um rosto redondo com olhos graúdos. Eu tinha medo dos dois. Às vezes, havia uma terceira pessoa, que era gorda e usava vestidos com laço no pescoço. Usava também um broche descomunal e tinha muitas verrugas na face, com pequenos pêlos que delas brotavam. "Emily", eles a chamavam. Essas pessoas não pareciam felizes em estar juntas. Emily era a avó, a mãe de meu pai. O nome do meu pai era "Henry". O nome da minha mãe era "Katherine". Nunca lhes chamava pelo nome. Eu era "Henry Júnior". Essas pessoas falavam em alemão a maior parte do tempo, assim como eu, no começo.

The first thing I remember my grandmother saying was, "I will bury all of you!" She said this the first time just before we began eating a meal, and she was to say it many times after that, just before we began to eat. Eating seemed very important. We ate mashed potatoes and gravy, especially on Sundays. We also ate roast beef, knockwurst and sauerkraut, green peas, rhubarb, carrots, spinach, string beans, chicken, meatballs and spaghetti, sometimes mixed with ravioli; there were boiled onions, asparagus, and every Sunday there was strawberry shortcake with vanilla ice cream. For breakfasts we had French toast and sausages, or there were hotcakes or waffles with bacon and scrambled eggs on the side. And there was always coffee. But what I remember best is all the mashed potatoes and gravy and my grandmother, Emily, saying, "I will bury all of you!"

A primeira coisa que lembro de ouvir minha avó dizer foi:

— Enterrarei todos vocês!

Ela disse isso pela primeira vez logo antes da refeição, e voltaria a repeti-lo por diversas vezes ainda, sempre antes de começarmos a comer. Comer parecia muito importante. Comíamos purê com molho de carne, especialmente aos domingos. Também comíamos rosbife, knockwurst e chucrute, ervilhas, ruibarbo, cenouras, espinafre, feijão-fradinho, galinha, almôndega e espaguete, algumas vezes misturados com ravióli; havia sopas de cebola e de aspargo; e todos os domingos, torta de morango com sorvete de baunilha. No café-da-manhã, tínhamos torradas e salsichas, ou então bolinhos, ou waffles servidos com bacon e ovos mexidos. E sempre havia café. Mas a lembrança mais forte que tenho é dos purês com molho de carne e de minha avó Emily dizendo:

— Enterrarei todos vocês!

She visited us often after we came to America, taking the red trolley in from Pasadena to Los Angeles. We only went to see her occasionally, driving out in the Model-T Ford.

Ela nos visitava com bastante frequência depois que nos mudamos para a América, pegando o bonde vermelho que ia de Pasadena a Los Angeles. Só íamos visitá-la muito raramente, a bordo do Ford Modelo-T.

I liked my grandmother's house. It was a small house under an overhanging mass of pepper trees. Emily had all her canaries in different cages. I remember one visit best. That evening she went about covering the cages with white hoods so that the birds could sleep. The people sat in chairs and talked. There was a piano and I sat at the piano and hit the keys and listened to the sounds as the people talked. I liked the sound of the keys best up at one end of the piano where there was hardly any sound at all -- the sound the keys made was like chips of ice striking against one another.

Eu gostava da casa da minha avó. Era uma casinha rodeada de pimenteiras. Emily mantinha todos os seus canários em gaiolas diferentes. Lembro bem de uma das visitas. Naquela noite ela cobriu as gaiolas com uns panos brancos para que os passarinhos pudessem dormir. As pessoas estavam sentadas e conversavam. Havia um piano, e fui me sentar junto a ele, tocando as teclas e escutando o som que elas produziam enquanto as pessoas seguiam falando. Eu gostava dos sons das teclas, principalmente os das mais agudas, nota: Salsicha alemã curta e grossa, fortemente temperada. Em alemão, no original que quase não tinham som nenhum - pareciam cubos de gelo se chocando uns contra os outros.

"Will you stop that?" my father said loudly."Let the boy play the piano," said my grandmother. My mother smiled."That boy," said my grandmother, "when I tried to pick him up out of the cradle to kiss him, he reached up and hit me in the nose!" They talked some more and I went on playing the piano. "Why don't you get that thing tuned?" asked my father. Then I was told that we were going to see my grandfather. My grandfather and grandmother were not living together. I was told that my grandfather was a bad man, that his breath stank.

— Quer parar com isso? - gritou meu pai.

- Deixe o garoto tocar o piano - disse minha avó. Minha mãe sorriu.

- Esse garoto... - disse minha avó -, quando tentei tirá-lo do berço para lhe dar um beijo, ele se levantou e me acertou o nariz!

Falaram mais um pouco, e eu voltei a tocar o piano.

- Por que você não afina essa coisa? - perguntou meu pai.

Então fui avisado de que iríamos ver o meu avô. Meus avós não moravam juntos. Foi- me dito que meu avô era um homem mau, que seu hálito fedia.

"Why does his breath stink?"

They didn't answer.

- Por que o hálito dele fede? Ninguém respondeu.

"Why does his breath stink?"

- Por que o hálito dele fede?

"He drinks."

- Ele bebe.

We got into the Model-T and drove over to see my Grandfather Leonard. As we drove up and stopped he was standing on the porch of his house. He was old but he stood very straight. He had been an army officer in Germany and had come to America when he heard that the streets were paved with gold. They weren't, so he became the head of a construction firm.

Entramos no Modelo-T e fomos ver o meu avô Leonard. Enquanto estacionávamos, ele aguardava de pé na entrada da casa. Era velho, mas mantinha uma postura bastante ereta. Tinha sido um oficial do exército alemão e tinha vindo para a América quando ouviu falar que as ruas por aqui eram cobertas de ouro. Justamente por não serem, ele acabou como chefe de uma empreiteira.

The other people didn't get out of the car. Grandfather wiggled a finger at me. Somebody opened a door and I climbed out and walked toward him. His hair was pure white and long and his beard was pure white and long, and as I got closer I saw that his eyes were brilliant, like blue lights watching me. I stopped a little distance away from him."Henry," he said, "you and I, we know each other. Come into the house. "He held out his hand. As I got closer I could smell the stink of his breath. It was very strong but he was the most beautiful man I had ever seen and I wasn't afraid. I went into his house with him. He led me to a chair. "Sit down, please. I'm very happy to sec you. "He went into another room. Then he came out with a little tin box. "It's for you. Open it."

As outras pessoas não saíram do carro. Vovô me fez um gesto convidativo com um dedo. Alguém abriu a porta, e eu desci e caminhei na direção dele. Seu cabelo era longo, de um branco puro, assim como sua barba, e, à medida que me aproximava, percebi que seus olhos eram brilhantes, como luzes azuis a me vigiar. Parei a uma certa distância de onde ele estava.

- Henry - ele disse -, você e eu, nós nos conhecemos. Vamos entrar. Estendeu sua mão. Ao me aproximar, pude sentir o fedor do seu hálito. Era realmente um cheiro forte, mas ele era o homem mais bonito que eu já tinha visto, e não senti medo algum. Entrei em sua casa com ele. Conduziu-me até uma cadeira. - Sente-se, por favor. Estou muito feliz em ver você. Ele foi até uma outra peça. Voltou, logo depois, com uma pequena caixa de latão.

- é pra você. Abra.

I had trouble with the lid, I couldn't open the box."Here," he said, "let me have it."

Tive dificuldade com a tampa, eu não conseguia abrir a caixa.

He loosened the lid and handed the tin box back to me. I lifted the lid and here was this cross, a German cross with a ribbon."Oh no," I said, "you keep it."

- Aqui - ele disse -, deixa que eu dou um jeito. Abriu a tampa e me devolveu a caixa. Quando a abri, pude ver uma cruz no interior, uma cruz de ferro com uma fita.

- Oh, não - eu disse -, fique com ela.

"It's yours," he said, "it's just a gummy badge.""Thank you."

- É sua - ele disse -, é apenas um velho distintivo.

- Muito obrigado.

"You better go now. They will be worried.""All right. Goodbye."

- É melhor você ir. Devem estar preocupados.

- Está bem. Até logo.

"Goodbye, Henry. No, wait . . .

- Até logo, Henry. Não, espere...

"I stopped. He reached into a small front pocket of his pants with a couple of fingers, and tugged at a long gold chain with his other hand. Then he handed me his gold pocket watch, with the chain.

Parei. Ele vasculhou com dois dedos um pequeno bolso na parte da frente das calças e puxou uma longa corrente de ouro com a outra mão. Então, alcançou-me seu relógio de bolso, de ouro, com a corrente.

"Thank you. Grandfather . . ."

- Obrigado, vovô...

They were waiting outside and I got into the Model-T and we drove off. They all talked about many things as we drove along. They were always talking, and they talked all the way back to my grandmother's house. They spoke of many things but never, once, of my grandfather.

Lá fora, eles estavam me esperando, e eu entrei no Modelo-T e partimos. Eles falavam sobre assuntos variados enquanto o trajeto era percorrido. Estavam sempre falando, e não calaram a boca até que chegássemos de volta à casa da minha mãe. Falaram de muitas coisas, mas não mencionaram, uma vez sequer, a figura do meu avô.

I remember the Model-T. Sitting high, the running boards seemed friendly, and on cold days, in the mornings, and often at other times, my father had to fit the hand-crank into the front of the engine and crank it many times in order to start the car.

Lembro do Modelo-T. Do banco elevado, os frisos laterais pareciam amigáveis, e nos dias frios, pelas manhãs, e também várias outras vezes, meu pai era obrigado a encaixar a manivela no motor da frente e girá-la incessantemente até fazer o carro pegar.

Bukowski, Charles. Ham and Rye. Santa Barbara: Black Sparrow Press, 1984, p.1-4.

Bukowski, Charles. Misto Quente. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: L&PM, 2005, p.11-14. (Ham on Rye). Romance.

Bibliografia

Traduções Publicadas

Benedetti, Mário. A trégua. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2008. (La tregua). Romance

Bukowski, Charles. Ao sul de lugar nenhum. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2008. (South of no North). Conto.

Bukowski, Charles. Bukowski – Textos autobiográficos. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2009. (Run with the hunted). Conto.

Bukowski, Charles. Cartas na rua. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2011. (Post Office). Romance

Bukowski, Charles. Factotum. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2007. (Factotum). Romance.

Bukowski, Charles. Misto Quente. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2005. (Ham on Rye). Romance.

Bukowski, Charles. O amor é um cão dos diabos. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2010. (Burning in Water, Drowning in Flame [1974]; Africa, Paris, Greece [1975]; Scarlet [1976]; Maybe Tomorrow [1977]). Poesia -  Coletânea.

Bukowski, Charles. Pedaços de um caderno manchado de vinho. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2010. (Portions from a wine-stained notebook). Conto, ensaio.

Chandler, Raymond. Para sempre ou nunca mais – playback. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2007. (Playback). Romance.

Christie, Agatha. A aventura do pudim de natal. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2012. (The adventure of the christmas pudding). Romance

Christie, Agatha. Os últimos casos de miss Marple. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2011. (Miss Marple final cases). Romance.

Christie, Agatha. Poirot e o mistério da arca espanhola e outras histórias. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2009. (The harlequin tea set and other stories). Conto.

Christie, Agatha. Poirot sempre espera e outras histórias. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2008. (The underdog; second gong; sanctuary and other stories). Conto.

Christie, Agatha. Punição para a inocência. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2009. (Ordeal by inocence). Romance.

Darwin, Charles. Viagem de um naturalista ao redor do mundo V.1. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2008. (The Voyage of a beagle). Diário.

Darwin, Charles. Viagem de um naturalista ao redor do mundo V.2. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2008. (The Voyage of a beagle). Diário.

Doyle, Arthur Conan. A aventura de um cliente ilustre: seguido de O último adeus de Sherlock Holmes. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2012. (IN: The Case Book of Sherlock Holmes). Conto.

Doyle, Arthur Conan. O Vampiro de Sussex e outras Histórias. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2001. (IN: The Case Book of Sherlock Holmes). Conto.

Highsmith, Patricia. O livro das feras. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2005. (The animal-lovers’s book of beastly murder). Conto.

Himes, Chester. A louca matança. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2007. (The crazy kill). Romance.

London, Jack. O lobo do mar. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2001. (The sea wolf). Romance.

Ryan, Cornelius. A última batalha. [Por: Pedro Gonzaga]. Porto Alegre: LP&M, 2005. (The last battle). História.

Obra própria

 

Poesia

Gonzaga, Pedro. A última temporada. Porto Alegre: Ardotempo, 2011.

 

Conto

Gonzaga, Pedro. Dois andares acima. Porto Alegre: Novo Século, 2007.

Gonzaga, Pedro. Cidade fechada. Porto Alegre: Leitura XXI, 2004.

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