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Dicionário de tradutores literários no Brasil


Octávio de Faria

Perfil | Excertos de traduções | Bibliografia

Octávio de Faria nasceu em 1908, no Rio de Janeiro, onde também morreu, em 1980. Graduou-se em 1931 pela Escola Nacional de Direito, mas não exerceu a advocacia. Dedicou-se à literatura, destacando-se principalmente como romancista. No último ano de faculdade publicou seu primeiro texto literário, um ensaio intitulado Maquiavel e o Brasil, ao qual seguiram-se Destino do socialismo (1933) e Dois poetas (1935). Ganhou prestígio como romancista com a série Tragédia burguesa, obra composta de treze volumes, publicados entre 1936 e 1979, em que Octávio trata de questões fundamentais da existência humana, tendo como pano de fundo a sociedade carioca e os problemas associados à burguesia. Como ensaísta publicou Cristo e César (1937), Fronteiras da santidade (1940), Dignificação do faroeste (1952), Pequena introdução à história do cinema (1964) e Novelas da masmorra (1966).

Octávio de Faria destacou-se também como tradutor. Em parceria com Adonias Filho transpôs do alemão ao português O processo Maurizius [Der Fall Maurizius], o primeiro livro da trilogia de Jakob Wassermann (1893-1934), e com Maria Helena Amoroso Lima Senise traduziu Etzel Andergast [Etzel Andergast], o segundo livro dessa mesma trilogia. Traduziu também Judas, o obscuro [Jude the obscure], do inglês Thomas Hardy (1840-1928), Um milhão de dólares por Vietcong [Un Million de Dollars le Viet], de Jean Lartéguy (1920), e A mulher de Montmartre [La passante du Sans-souci], de Joseph Kessel (1898-1979).

Em 1970, Octávio recebeu, da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Registre-se que em 1972 passou a ser membro dessa academia, ocupando a cadeira de número 27.

Verbete publicado em 6 de October de 2007 por:
Fabrício Coelho
Werner Heiderman

Modificado em 6 de October de 2007

Excertos de traduções

Excerto de O processo Maurizius, de Jakob Wassermann. Tradução de Octávio de Faria e Adonias Filho:

3

III

Das lautlose Überwachungssystem erfüllte seinen Zweck kaum noch dem Scheine nach, da Etzel bereits erfolgreiche Anstalten getroffen hatte, sich aus den unbequemen Klammern zu befreien. Dies wurde ihm freilich schwerer als andern Jungen in ähnlicher Lage, da ihn seine Loyalität an Abmachungen band und seine geistige Selbständigkeit ihn verhinderte, sich einem Altersgenossen anzuvertrauen. Es war ihm auch nicht möglich, sich einer der Gruppen oder Parteien anzuschließen, die sich unter den Kameraden gebildet hatten und fortwährend neu bildeten. Er hatte keine Freude an ihren Debatten und nahm an ihren Versammlungen nur selten und widerwillig teil. Kaum war er zu bewegen, sich zu einer Frage beistimmend oder ablehnend zu äußern, und ihre kategorischen Erledigungen erweckten nichts als Zweifel in ihm. In seiner Zurückhaltung lag mehr Mut als in dem Geschrei der Draufgänger, das wurde eingesehen. Sonderbar genug, man achtete ihn deshalb. Trotzdem war der einzige Freund, den er hatte ( für sich selbst schränkte er den Titel Freund vorsichtig ein, nach außen ließ er ihn aus Courtoisie gelten), ein Radikalist und unruhiger Kopf; aber schließlich war es ja nicht die Gesinnung Robert Thielemanns, deretwegen er ihn zum Gefährten erwählt, sondern eine gewisse Breite und Offenheit der Natur, die ihm gefiel; und so entstand ein Verhältnis, das auf Temperamentsausgleich gegründet war, wobei sich groß und klein, plump und beweglich, rauh und zart im Gegensatz ergänzten. Thielemann liebte es, den Beschützer Etzels zu spielen, um dessen geistige Überlegenheit oder Überlegenheit der persönlichen Form er übrigens wußte. Für seine manchmal ans Bizarre streifende Ursprünglichkeit im Denken und Urteilen fehlte ihm das Verständnis, aber die körperliche Unentwickeltheit Etzels und seine scheue Feinheit (unter der sich allerdings eine für ihn nicht wahrnehmbare Kraft verbarg) trieben ihn dazu, den Jüngeren und Schwächeren zu bemuttern. Und nicht nur er allein, alle Kameraden gingen glimpflich mit ihm um.

Este sistema mudo de vigilância só aparentemente atingia seu fim, tendo Etzel tomado disposições eficazes para livrar-se dele. Sentia mais dificuldade do que o teriam outros rapazes em seu lugar, sua lealdade o prendendo a certas convenções e sua independência de espírito o impedindo de se abrir com um camarada de sua idade. Também não lhe era possível reunir-se a um dos grupos ou partidos que incessantemente se formavam e se reformavam entre seus companheiros. Não tinha nenhum prazer nas suas discussões e apenas raramente e contra a vontade assistia às suas reuniões. Não era coisa fácil levá-lo a opinar sobre uma questão, em um ou outro sentido, e suas soluções categóricas só lhe despertavam dúvidas. Percebiam eles, aliás, que em sua reserva havia mais coragem que nas gritarias dos energúmenos e, coisa estranha, era em conseqüência ainda mais estimado por todos. Apesar disso, o único amigo que possuía ( interiormente, era muito circunspecto na atribuição desse título que, em público, aceitava por simples cortesia), era um espírito agitado, de opiniões radicais; mas, em última análise, não fora por suas idéias que elegera Roberto Thielemann, apenas pela fraqueza de sua natureza, nascendo assim entre eles relações fundadas sobre o princípio das compensações, em que o grande e o pequeno, a lentidão de um e a vivacidade de outro, a rudeza de uma parte, a delicadeza de outra parte, completavam-se pelo próprio contraste. Thielemann gostava de desempenhar o papel de protetor de Etzel, em quem conhecia superioridade intelectual, ou melhor, superioridade de educação. Comumente, não compreendia aquela originalidade de pensamento, de julgamento, que tocava por vezes à extravagância, mas, vendo Etzel tão pouco desenvolvido fisicamente, vendo sua delicadeza tímida (sob a qual, é verdade, se ocultava uma força que ele não percebia, sentia-se impelido a proteger o camarada mais jovem e mais frágil. Não somente ele, mas todos o tratavam com consideração.

Etzel idealisierte, wie gesagt, seine Freundschaft mit Thielemann nicht. Er erkannte klar das Vorläufige wie das Ungenügende daran und benahm sich wie jemand, der, vielleicht aus Bescheidenheit, vielleicht um nicht aufzufallen, vielleicht weil er nichts Besseres gefunden hat, mit einer ziemlich engen Behausung vorliebnimmt, obwohl ihm seine Mittel gestatten würden, eine bessere zu beziehen. Das Gefühl des Provisorischen herrschte überhaupt bei all seinen Beziehungen in ihm vor, ohne daß er wußte, woher es kam, und ohne daß er dagegen anzukämpfen vermochte. Mühsam genug, es nach außen hin zu verheimlichen, wenn er es in manchen Momenten sich selber nicht mehr verheimlichen konnte. Das war es eben, er hatte die Gabe, sich selber was zu verheimlichen: ein schwieriger Prozeß, der Schlauheit und einige Phantasie erfordert. (Er legte aber keinen Wert auf Phantasie, er wollte nichts wissen von der Phantasie, und das war eine weitere Merkwürdigkeit seines Charakters.)

Etzel, pois, não idealizava a sua amizade por Thielemann. Tinha absoluta consciência do que havia nela de provisório e, também, de insuficiente. E procedia como o indivíduo que, seja por discrição, seja por não se fazer notar, seja porque nada encontre de melhor, contenta-se com uma habitação exígua, embora seus meios lhe permitam instalar-se com mais conforto. Era esse sentimento de transitoriedade que geralmente prevalecia em suas relações com os outros, sem que soubesse de onde vinha aquela impressão ou pudesse evitá-la Dificílimo mesmo escondê-la dos outros quando, muito freqüentemente, não conseguia escondê-la de si mesmo. Pois possuía, precisamente, esse dom de poder dissimular alguma coisa a si mesmo - árdua operação que exige astúcia e alguma imaginação. (Mas Etzel não concedia nenhum valor à imaginação, não queria saber dela, e era este um outro traço curioso de seu caráter).

Gern hätte er mit Robert Thielemann über den Mann mit der Kapitänsmütze gesprochen, unterließ es jedoch, da er fürchtete, auch sich selbst die Beunruhigung, die von ihm ausging, zu deutlich zu enthüllen. Die dreimal wiederholte Erscheinung des Alten beschäftigte und verdunkelte unablässig seine Gedanken. An dem Tage, wo er Zeuge wurde, daß der mysteriöse Mensch auch seinem Vater auf dessen Wegen folgte, auch ihm gegenüberzutreten wagte und daß dies, bei allem Hochmut, bei aller kalten Unnahbarkeit, kein gleichgültiger Eindruck für den Vater zu sein schien, keine verächtliche Episode, dessen glaubte Etzel sicher zu sein, an dem Tage verwandelte sich die bloße Beunruhigung in gereiztes, fortwährend anwachsendes Mißtrauen, das gegen alle und alles in seiner Umgebung gerichtet war, als trügen die Mauern nicht mehr verläßlich das Dach, als seien penetrante Giftstoffe in den Schränken aufbewahrt, als brenne im Keller eine Zündschnur, die demnächst eine Kiste Dynamit zur Explosion bringen mußte. Dieser peinlich abwartende Zustand dauerte mit größeren oder geringeren Pausen an, bis ihm in einem der Aktenfaszikel des Vaters das Schriftstück in die Hände geriet, das dann sein ganzes ferneres Schicksal entscheidend beeinflußte.

Desejara muito falar a Roberto Thielemann do homem de gorro de marítimo. Absteve-se, porém, receando tornar muito sensível a si mesmo a inquietude que sentia. A aparição três vezes repetida do velho ocupava e obscurecia, sem descanso, seus pensamentos. No dia em que viu com os próprios olhos que o indivíduo misterioso seguia também seu pai, e também o ousava afrontar, e que essa audácia, apesar de todo o orgulho que o outro revelava, da sua frieza distante, parecia não o deixar indiferente, nem ser considerada como um sintoma desprezível - Etzel acreditava estar seguro disso - desde esse dia aquela simples inquietude se transformou em uma desconfiança nervosa, incessantemente crescente em relação a tudo que o cercava, pessoas e coisas, como se as paredes que sustentavam o teto não oferecessem mais nenhuma garantia, como se nos armários fossem conservados produtos sutis, deletérios, como se uma mecha ardesse no porão prestes a fazer explodir uma caixa de dinamite. Com períodos de descanso mais ou menos longos, esse estado de expectativa durou até o dia em que, entre os autos do pai, Etzel pôs a mão no documento que teve sobre seu destino influência decisiva.



Wassermann, Jakob. Der Fall Maurizius. Reinbek bei Hamburg: Rowohlt, 1975, pp. 11-13



Wassermann, Jakob. O processo Maurizius. Trad. Octávio de Faria e Adonias Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1982, pp. 11-13.

Bibliografia

Traduções Publicadas

Hardy, Thomas. Judas, o obscuro.  (Por: Octávio de Faria) São Paulo: Abril Cultural, 1971. (Jude the obscure, 1895)

Kessel, Joseph. A mulher de Montmartre.  (Por: Octávio de Faria). São Paulo: Record, 1968. (La passante du Sans-souci, 1936)

Lartéguy, Jean. Um milhão de dólares por Vietcong. (Por: Octávio de Faria). Rio de Janeiro: José Olympio, 1966. (Un Million de Dollars le Viet, 1965).

Wassermann, Jakob. Etzel Andergast.  (Por: Octávio de Faria e Maria Helena Amoroso Lima Senise). Rio de Janeiro: A noite, 1940. [Etzel Andergast, 1931]

Wassermann, Jakob. O processo Maurizius. (Por: Octávio de Faria e Adonias Filho). São Paulo: Abril Cultural, 1982. [Der Fall Maurizius, 1928]

Obra própria

Faria, Octávio de.  Mundos mortos. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1962.

Faria, Octávio de. Os caminhos da vida. Rio de Janeiro: CEA, 1971.

Faria, Octávio de. O lodo das ruas. Rio de Janeiro: CEA, 1971.

Faria, Octávio de. O anjo de pedra. Rio de Janeiro: CEA, 1973.

Faria, Octávio de. Os renegados. Rio de Janeiro: José Olympio,1947.

Faria, Octávio de. Os loucos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1952.

Faria, Octávio de. O senhor do mundo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957.

Faria, Octávio de. O retrato da morte. Rio de Janeiro: José Olympio, 1961.

Faria, Octávio de. Ângela, ou As areias do mundo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1963.

Faria, Octávio de. A sombra de Deus. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.

Faria, Octávio de. O cavaleiro da Virgem. Rio de Janeiro: CEA, 1971.

Faria, Octávio de. O indigno. Rio de Janeiro: Pallas, 1976.

Faria, Octávio de. O pássaro oculto. Rio de Janeiro: Pallas, 1979.

Faria, Octávio de.  O destino dos amaldiçoados. Rio de Janeiro: CEA, 1973.

Faria, Octávio de. O grande assalto do demônio. Rio de Janeiro: CEA, 1973.

Faria, Octávio de. Maquiavel e o Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933.

Faria, Octávio de. Pequena introdução à história do cinema. São Paulo: Martins, 1964.

Faria, Octávio de. Dois poetas: Augusto Frederico Schmidt e Vinicius de Moraes. Rio de Janeiro: Ariel, 1935.

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