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Dicionário de tradutores literários no Brasil


Lucia Miguel Pereira

Perfil | Excertos de traduções | Bibliografia

Lucia Miguel Pereira nasceu em Barbacena, Minas Gerais, em 12 de dezembro de 1901. Apesar disso, Antonio Candido (2004, p. 128), primo de Lucia Miguel Pereira, salienta não ser adequado qualificá-la como escritora mineira, já que esta vivera toda sua vida no Rio de Janeiro, de modo que foi muito mais influenciada por esta cidade. Seu pai, Miguel Pereira, fora um renomado médico e professor de Clínica Médica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. De acordo com Antonio Candido (2004, p. 129), além de Miguel Pereira, sua mãe e avó exerceram um papel importante na vida intelectual e profissional de Lucia, uma vez que se tratava de mulheres cultas, grandes leitoras, que compartilhavam com a jovem o prazer literário.

Lucia Miguel Pereira atuou em diversas áreas das Letras, acumulando as funções de escritora, tradutora, crítica literária e biógrafa. Seu contato aprofundado com línguas estrangeiras, sobretudo o francês, deu-se no colégio Notre Dame de Sion, de filosofia católica.

Sua estreia no meio literário ocorre em 1927, com a publicação de um artigo sobre Euclides da Cunha, intitulado "Um bandeirante", publicado no número 3 da revista ELO. Em 1933, Lucia Miguel Pereira estreia como escritora com a publicação de Maria Luísa, motivada por Manuel Bandeira e Augusto Frederico Schmidt. Nesse mesmo ano publicou seu segundo romance, Em surdina, com o selo da Ariel Editora. As obras ficcionais de Lucia Miguel Pereira são frequentemente classificadas como romances de introspecção e apresentam, fundamentalmente, protagonistas do sexo feminino, através das quais explora temáticas relativas à sua condição social. Lucia Miguel Pereira teve seu valor literário reconhecido e celebrado com a criação da Escola Municipal Lucia Miguel Pereira, em 1960, no bairro carioca de São Conrado, até hoje em funcionamento.

Embora a autora já tivesse publicado dois romances, bem como uma série de artigos em jornais e revistas de circulação nacional, a sua verdadeira consagração no mundo das Letras se deu com a publicação de Machado de Assis: estudo crítico e biográfico, em 1936, pela Companhia Editora Nacional, obra que se tornou referência para o estudo deste escritor. Além de sua atuação enquanto romancista, crítica literária e biógrafa, o ano de 1939 marca sua estreia na literatura infantil, com a obra A fada menina. Com o sucesso do livro inaugural, o qual fora reeditado em 1944, surgiram novas publicações na mesma linha, tais como A floresta mágica, Maria e seus bonecos e A filha do Rio Verde, publicados em 1943. Em 1954, Lucia Miguel Pereira lança pela editora José Olympio seu quarto romance, Cabra-cega, com capa do artista plástico e ilustrador Santa Rosa.

Além de escritora, crítica e biógrafa, Lucia Miguel Pereira era exímia tradutora, responsável por diversos títulos, tais como América, de Hendrik Van Loor, sua primeira tradução, publicada em 1935. Já em 1940, Lucia apresenta a tradução A vida trágica de Van Gogh, de Irving Stone. Embora tenha traduzido diversas obras, foi, sem dúvida, com a tradução do último volume de À la Recherche du temps perdu, de Marcel Proust, a saber, Le temps retrouvé que a escritora-tradutora se consagrou no campo da tradução literária. A célebre obra do escritor canônico Marcel Proust fora publicada pela editora Livraria do Globo, entre 1948 e 1957, tendo sido realizada através do trabalho coletivo de grandes escritores-tradutores: Mario Quintana, responsável pelos quatro primeiros volumes, Manuel Bandeira, que traduziu o quinto volume em parceria com Lourdes Sousa de Alencar, Carlos Drummond de Andrade, responsável pelo sexto volume, e, finalmente, Lucia Miguel Pereira, que assinou a tradução do último volume do romance.

Apesar de ter sido, segundo as palavras de seu biógrafo Fabio de Sousa Coutinho, "uma das principais conhecedoras da obra de Proust de seu tempo" (2017, p. 141), razão pela qual Maurício Rosenblatt, então representante da Globo no Rio de Janeiro, procurou-lhe para oferecer a tradução, a editora Globo recusou a sugestão de tradução do título da obra, mantendo O tempo redescoberto, que não agradava a tradutora:

Com o escolhido – O tempo redescoberto – não concordo de modo algum. Já ouvi que se reservam em geral os editores, sob a alegação de conhecerem melhor os que atraem os compradores, o direito de opinar sobre os títulos, mas até este momento ignorava que usassem alguns nem ao menos consultar  senão os autores, os tradutores. Fica-me a lição, infelizmente tardia.*

Lucia Miguel Pereira faleceu em um acidente aéreo, aos 58 anos, no dia 23 de dezembro de 1959, após o avião em que estava também seu marido, o historiador Octavio Tarquínio de Sousa, ter se chocado com um avião da FAB, do qual apenas o piloto da FAB saíra com vida. Lucia Miguel Pereira foi enterrada ao lado de seu companheiro no Cemitério de São João Batista, em Botafogo.

 

* PEREIRA, Lucia Miguel. "Sobre a tradução de Proust". O Estado de S. Paulo. 22 de junho de 1957. p. 37. 

 

Verbete publicado em 23 de December de 2019 por:
Jefferson Ebersol da Silva
Sheila Maria dos Santos

Excertos de traduções

Excertos de O tempo redescoberto, de Marcel Proust. Tradução de Lucia Miguel Pereira.

Mme Verdurin souffrant pour ses migraines de ne plus avoir de croissant à tremper dans son café au lait, avait obtenu de Cottard une ordonnance qui lui permettait de s’en faire faire dans certain restaurant dont nous avons parlé. Cela avait été presque aussi difficile à obtenir des pouvoirs publics que la nomination d’un général. Elle reprit son premier croissant le matin où les journaux narraient le naufrage du Lusitania. Tout en trempant le croissant dans le café au lait et donnant des pichenettes à son journal pour qu’il pût se tenir grand ouvert sans qu’elle eût besoin de détourner son autre main des trempettes, elle disait : « Quelle horreur ! Cela dépasse en horreur les plus affreuses tragédies. »

A Sra. Verdurin, piorando de suas enxaquecas por nãos ter mais meias-luas para molhar no seu café com leite matinal, obtivera de Cottard uma receita que lhe permitira encomendá-los no restaurante de que já falamos. A licença fora tão difícil de arrancar dos poderes públicos como a nomeação de um general. Saboreou o primeiro pãozinho na manhã em que os jornais narravam o naufrágio do Lusitânia. Mergulhando-o na chícara, e dando piparotes no jornal, a fim de mantê-lo bem aberto sem o auxílio da outra mão, a da gula, exclamava: “Que horror! Nunca houve tragédia igual!”

 

 

PROUST, Marcel. Le temps retrouvé: tome VIII. Vol. 1. Paris: Nouvelle Revue Française, 1927.

Proust, Marcel. O tempo redescoberto. [Por: Lucia Miguel Pereira]. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1957. (Le temps retrouvé). Romance. p. 54.

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Et presque tout de suite je le reconnus, c’était Venise dont mes efforts pour la décrire et les prétendus instantanés pris par ma mémoire ne m’avaient jamais rien dit et que la sensation que j’avais ressentie jadis sur deux dalles inégales du baptistère de Saint-Marc, m’avait rendue avec toutes les autres sensations jointes ce jour-là à cette sensation-là, et qui étaient restées dans l’attente, à leur rang, d’où un brusque asard les avait impérieusement fait sortir, dans la série des jours oubliés. De même le goût de la petite madeleine m’avaiet rappelé Combray.

E logo a seguir, bem a reconheci, surgiu-me Veneza, da qual nunca me satisfizeram meus ensaios discritivos (sic) e os pretensos instantâneos tomados pela memória, e me era agora devolvida pela sensação outrora experimentada sobre dois azulejos desiguais do batistério de S. Marcos, juntamente com todas as outras sensações àquela somadas no mesmo dia, que haviam ficado à espera, em seu luga na fila dos dias esqueidos, de onde um súbito acaso as fazia imperiosamente sair. Tal como o gosto do pequeno bolinho me recordava Combray.

 

 

PROUST, Marcel. Le temps retrouvé: tome VIII. Vol. 2. Paris: Nouvelle Revue Française, 1927.

Proust, Marcel. O tempo redescoberto. [Por: Lucia Miguel Pereira]. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1957. (Le temps retrouvé). Romance. p. 121

Bibliografia

Traduções Publicadas

Aurélio, Marco. Meditações. [Por: Lucia Miguel Pereira]. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957. ( Τὰ εἰς ἑαυτόν). Filosofia.

Bruckberger, Raymond Leopold. Maria Madalena. [Por: Lucia Miguel Pereira]. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955. (Marie-Madeleine). Romance.

Crane, Stephen. “A noiva chega a Yellow Sky”. [Por: Lucia Miguel Pereira]. Revista do Brasil, Rio de Janeiro, ano IV, n. 40, p. 48-56, out. 1941. Seção “O conto estrangeiro”. Conto.

Dostoievski, Fiodor. “A árvore de Natal de Cristo”. [Por: Lucia Miguel Pereira]. Revista do Brasil, Rio de Janeiro, ano III, n. 21, p. 49-52, mar. 1940. Seção “O conto estrangeiro”.Conto.

Kafka, Franz. “Chacais e árabes”. [Por: Lucia Miguel Pereira]. Revista do Brasil, Rio de Janeiro, ano V, n. 50, p. 61-64, ago. 1942. Seção “O conto estrangeiro”.Conto.

Lemaitre, Jules. “Escola de Reis”. [Por: Lucia Miguel Pereira]. Revista do Brasil, Rio de Janeiro, ano III, n. 24, p. 63-65, jun. 1940. Seção “O conto estrangeiro”.Conto.

Proust, Marcel. O tempo redescoberto. [Por: Lucia Miguel Pereira]. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1957. (Le temps retrouvé). Romance.

Stone, Irving. A vida trágica de Van Gogh. [Por: Lucia Miguel Pereira]. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940. (Lust for life). Romance.

Van Loon, Hendrik. América. [Por: Lucia Miguel Pereira]. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1955. (The Story of America). História. 

 

Referências

CANDIDO, Antonio. Recortes. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004.

COUTINHO, Fabio de Sousa. Lucia: uma biografia de Lucia Miguel Pereira. Brasília: Outubro edições, 2017. 

PROUST, Marcel. O tempo redescoberto. Tradução de Lucia Miguel Pereira. Porto Alegre: Globo, 1957.m

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