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Dicionário de tradutores literários no Brasil


Dom Marcos Barbosa

Perfil | Excertos de traduções | Bibliografia

Lauro de Araújo Barbosa, mais conhecido pelo nome de Dom Marcos Barbosa, nasceu em 12 de setembro de 1915 em Cristina, Minas Gerais. Além de poeta, foi monge beneditino, sacerdote, escritor, redator, tradutor, membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Artes.

Em 1934, iniciou seus estudos de Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FND-UFRJ). Enquanto universitário, participou do Centro Dom Vital da Ação Universitária Católica cujo diretor na época era Alceu Amoroso Lima, de quem se tornou secretário particular. Alceu fundou a editora Agir com o intuito de promover as obras de escritores católicos e foi através dessa editora que D. Marcos Barbosa conseguiu publicar a maioria de seus livros.

Após obter seu diploma, ingressou no curso de Letras Clássicas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e publicou poemas, crônicas e artigos nas revistas “A Ordem” e “Vida”, nas quais era redator, e em outras de renome como a  “Revista do Brasil” e  “O Jornal”. Em 1939, abandonou o curso para entrar no Mosteiro de São Bento, onde em 1946 torna-se sacerdote.

Mesmo na ordem beneditina, não abdicou de sua produção literária e no ano seguinte publicou seu primeiro livro, Teatro (1947). A partir daí, D. Marcos Barbosa dedicou boa parte de sua vida à escrita, sendo a maioria de suas obras de cunho religioso. Embora tenha escrito em prosa, foi nos poemas que mais se destacou, dentre alguns dos mais importantes estão “Oração da família”, “Os óculos da vovó” e “Cântico de núpcias”. Além disso, manteve por mais de trinta anos o seu programa “Encontro marcado” pela Rádio Jornal do Brasil, onde ficou muito conhecido por narrar crônicas.  Devido ao grande talento para a poesia, venceu o concurso para o Hino do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro, em 1955, o qual foi traduzido para várias línguas, inclusive em latim, por ele mesmo. Em 1980, entrou para a Academia Brasileira de Letras como o quinto ocupante da cadeira 15 e em 85 para a Academia Brasileira de Artes, ocupando o lugar de Alceu Amoroso. 

Dom Marcos Barbosa ganhou o prêmio de “Cidadão Honorário do Município do Rio de Janeiro” em 1984, e dois anos mais tarde o prêmio “Poesia Pen Clube do Brasil”.  Em 1990, ganhou a condecoração de Chevalier des Arts et des Lettres da República Francesa e, em 1995, o prêmio de “São Sebastião de Cultura da Arquidiocese do Rio de Janeiro” como Personalidade do Ano.

Realizou traduções de latim, espanhol e francês. Participou da equipe de tradutores de textos litúrgicos da Conferência Nacional dos Bispos, ocasião em que traduziu diversos Salmos e Cânticos. Verteu para o português, duas obras do francês Paul Claudel, a peça teatral Joana d'Arc entre as chamas(1963) e a obra A via sacra (1953). Traduziu também Orações da arca de Carmen Bernos de Gasztold (1980) e O pão da vida (1955) de François Mauriac. Mas, certamente, são nas obras literárias que D. Marcos Barbosa se tornou mais conhecido, pois foi responsável por versões que se tornariam célebres por todo o país. Amante da literatura infantil foi o primeiro a traduzir no Brasil O pequeno príncipe (1956) de Antoine de Saint-Exupéry, sendo a única versão em sessenta anos, motivo pelo qual é considerada a tradução mais consagrada e conhecida. Em 1977, seria a vez do famoso livro de Maurice Duron, O menino do Dedo verde e, em 1982, Marcelino, Pão e Vinho, de José María Sánchez Silva.

No dia 5 de março de 1997, no Rio de Janeiro, aos 81 anos, Dom Marcos Barbosa vem a falecer, deixando um nome de grande contribuição para a cultura brasileira. 

Verbete publicado em 20 de August de 2016 por:
Aí­da Carla Rangel de Sousa
Bianca Cristina da Silva
Maria Paula Cruz Fonseca
Marie-Hélène Catherine Torres

Excertos de traduções

Excerto de O pequeno príncipe, de Antoine Saint-Exupéry. Tradução de Dom Marcos Barbosa.

Et il revint vers le renard:

E voltou, então, à raposa:

—  Adieu, dit-il . . .

— Adeus... — disse ele.

— Adieu, dit le renard. Voici mon secret. Il très simple: on ne voit bien qu’avec le coeur. L’essentiel est invisible pour les yeux.

—Adeus — disse a raposa. — Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.

— L’essentiel est invisible pour les yeux, répéta le petit prince, afin de se souvenir.

— O essencial é invisível aos olhos — repetiu o principezinho, para não se esquecer.

— C’est le temps que tu as perdu pour ta rose qui fait ta rose si importante.

— Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante.

— C’est le temps que j’ai perdu pour ma rose . . .  fit le petit prince, afin de se souvenir.

— Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... — repetiu ele, para não se esquecer.

— Les hommes ont oublié cette vérité, dit  le renard. Mais tu ne dois pas l’oublier.  Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé.  Tu es responsable de ta rose . . .

— Os homens esqueceram essa verdade — disse ainda a raposa.  Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...

— Je suis responsable de ma rose . . .  répéta le petit prince, afin de se souvenir.  

— Eu sou responsável pela minha rosa... — repetiu o principezinho, para não se esquecer.

 

 

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. Le petit prince. New York: A Harvest/HBJ Book, 1971, p. 87-88.

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. [Por Dom Marcos Barbosa]. Rio de Janeiro: Agir, 2015, p. 72-73. (Le Petit Prince).

Excerto de Marcelino, pan y vino, de José María Sanchez Silva. Tradução de Dom Marcos barbosa.

Al cabo del tiempo, el amor y trabajo que los frailes ponían en todo lo que hacían, produjo que su convento pareciese un edificio no solamente sólido, sino, incluso bello. Para entonces, ocurrió que una mañana, cuando los gallos aún dormían, oyó el hermano portero una especie de llanto al pie de la puerta, que estaba sólo entornada. Anduvo unos pocos pasos guiado por aquel soniquete cuando vio un bulto de ropa que se movía. Se acercó; de allí salían los ruidos, que eran producidos por el llanto de un recién nacido que alguien había abandonado hacía unas horas. Recogió el buen hermano a la criatura y entró al convento. Por no despertar a los que dormían, entretuvo al chiquitín como pudo; empapó un trozo de tela blanca en agua y se la dio a chupar al mamoncillo, con lo cual éste pareció conformarse al silencio que se le pedía. El chiquitín había cerrado sus ojos y al calorcillo del áspero hábito del buen Hermano se había dormido.

Devido ao trabalho e amor que punham em tudo, o convento, ao cabo de certo tempo, parecia não apenas sólido, mas até bonito. Com água tão perto, os frades trataram de plantar árvores, arbustos e flores, sem falar na magnífica horta, tudo muito limpo e organizado. Foi então que, certa manhã (estava nascendo este século), quando os galos ainda dormiam, o irmão porteiro ouviu um choro junto à porta, apenas encostada. Apurou mais o ouvido e acabou saindo, para verificar o que era. Embora bem longe, no lado do oriente, o dia ameaçasse clarear, ainda era noite. O irmão deu alguns passos em direção ao que estava ouvindo, quando quase tropeçou numa espécie de trouxa de roupa que se mexia. Aproximou-se. Os rumores não eram mais que o choro de um recém-nascido, abandonado há poucas horas. O bom irmão recolheu a criaturinha e entrou no convento. Para não despertar os que bem mereciam dormir, cansados de seus trabalhos e caminhadas, entreteve o menino como pôde: nada lhe ocorrendo de melhor, embebeu com água um chumaço de linho e o deu para o bebê chupar, após o que ele pareceu conformar-se com o silêncio exigido.

   

SILVA, José María Sánchez. Marcelino Pan y Vino. Quito: Libresa, 2006, p. 10-11.

SILVA, José María Sánchez. Marcelino Pão e Vinho. [Por Dom Marcos Barbosa]. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 7-8. (Marcelino Pan y Vino).

Excerto de O menino do dedo verde, de Maurice Druon. Tradução de Dom Marcos Barbosa.

Chapitre 10: Où Tistou retrouve Monsieur Trounadisse qui lui donne une leçon de misère.

Capítulo 10: No qual Tistu, de novo com o Sr. Trovões recebe uma lição de miséria.

— Mais pourquoi tous ces gens-là logent-ils dans des cabanes à lapins ? demanda-t-il soudain.

— Mas por que toda essa gente mora em casinhas de coelho? — perguntou de repente.

— Parce qu’ils n’ont pas d’autre maison, évidemment ; c’est une question stupide, répondit Monsieur Trounadisse.

— Porque não possuem outra casa, é claro. Isso é uma pergunta idiota — respondeu o Sr. Trovões.

— Et pourquoi n’ont-ils pas de maison?

— E por que é que eles não têm outra casa?

— Parce qu’ils n’ont pas de travail.

— Porque não têm trabalho.

— Pourquoi n’ont-ils pas de travail ?

— E por que é que eles não têm trabalho?

— Parce qu’ils n’ont pas de chance.

— Porque não têm sorte.

— Alors, ils n’ont rien du tout ?

— Então, quer dizer que eles não têm coisa alguma?

— C’est cela, Tistou, la misère.

— Sim, e a miséria é isto.

« Demain, au moins, ils auront quelques fleurs », se dit Tistou.

 “Pois amanhã” — disse Tistu consigo — “eles terão ao menos algumas flores”.

 Il vit un homme battre une femme, et un enfant s’enfuir en pleurant.

Ele viu um homem batendo na mulher e uma criança fugir chorando.

— Est-ce que la misère rend méchant ? dit Tistou.

— A miséria torna os homens ruins? — perguntou Tistu.

— Souvent, répondit Monsieur Trounadisse, qui se mit à lancer une fanfare de mots effrayants.

— Quase sempre — respondeu o Sr. Trovões, que começou a lançar uma fanfarra de terríveis palavras.

 

 

DRUON, Maurice.  Tistou les pouces verts. Paris: Hachette Jeunesse, 1968, p. 84-86.

DRUON, Maurice.  O menino do dedo verde. [Por Dom Marcos Barbosa]. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977, p. 67-68. ( Tistou les pouces verts).

Bibliografia

Traduções Publicadas

CLAUDEL, Paul. A via sacra. [Por: Dom Marcos Barbosa]. Rio de Janeiro: Agir, 1953. (Le Chemin de la Croix). Poesia

CLAUDEL, Paul. Joana d'Arc entre as chamas. [Por: Dom Marcos Barbosa]. Rio de Janeiro: Agir, 1963. (Jeanne D'Arc au Bûcher). Peça Teatral.

DRUON, Maurice. O menino do dedo verde. [Por: Dom Marcos Barbosa]. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977. (Tistou les Pouces Verts). Literatura Infantil.

GASZTOLD, Carmen Bernos de. Orações na arca.  [Por: Dom Marcos Barbosa]. Rio de Janeiro: Agir, 1980. (Prieres dans l’Arche). Poesia.

MAURIAC, François. O pão da vida: cenárioe diálogos para um filme.  [Por: Dom Marcos Barbosa]. Rio de Janeiro: Agir, 1955. (Le Pain Vivant). Ficção

OS SALMOS.  [Por: Dom Marcos Barbosa & Pe. Ernesto Vogt]. São Paulo: Loyola, 1978. Apresentação do Pe. Joaquim Salvador. Introdução de D. Marcos Barbosa. Tradução publicada originalmente em 1951 pelo Pe. Ernesto Vogt e revisada por D. Marcos Barbosa, atendendo ao pedido da Loyola de dar a ela uma "redação mais literária e poética"

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. [Por: Dom Marcos Barbosa]. Rio de Janeiro: Agir, 1956. (Le Petit Prince). Literatura Infantil.

SILVA, José María Sánchez. Marcelino pão e vinho. [Por: Dom Marcos Barbosa]. Rio de Janeiro: Record, 1982. (Marcelino Pan y Vino). Literatura Infantil. 

Obra própria

BARBOSA, Dom Marcos. Teatro. Rio de Janeiro: Agir, 1947. Poesia.

BARBOSA, Dom Marcos. Livro do peregrino. Rio de Janeiro: XXXVI Congresso Eucaristico, 1955.

BARBOSA, Dom Marcos. A noite será como o dia: Autos de Natal. Rio de Janeiro: Agir, 1959. Poesia.

BARBOSA, Dom Marcos. O Livro da família cristã. Rio de Janeiro: Santa Tereza Internacional, 1959.

BARBOSA, Dom Marcos. Poemas do reino de deus. Belo Horizonte: Vigilia, 1961. Poesia.

BARBOSA, Dom Marcos. Mãe nossa, que estais no céu: Autos e poemas sobre nossa senhora. Belo Horizonte: Vigília, 1962. Poesia.

BARBOSA, Dom Marcos. Para a noite de natal: poemas, autos e diálogos. Petrópolis: Vozes, 1963. Poesia.

BARBOSA, Dom Marcos. Para preparar e celebrar a páscoa: autos, diálogos e fogo cênico. Petrópolis: Vozes, 1964. Poesia.

BARBOSA, Dom Marcos. Eis que vem o senhor! Petrópolis: Vozes, 1965.

BARBOSA, Dom Marcos. O livro de tobias. Petrópolis: Vozes, 1968.

BARBOSA, Dom Marcos. Oratório e vitral de são cristóvão. Petrópolis: Vozes, 1969.

BARBOSA, Dom Marcos. A arte sacra. Rio de Janeiro: Presença, 1976.

BARBOSA, Dom Marcos. Mosteiro de são bento. Curitiba: Danúbio, 1984.

BARBOSA, Dom Marcos. Nossos amigos, os santos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.

BARBOSA, Dom Marcos. Um encontro com deus: teologia para leigos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.

BARBOSA, Dom Marcos; LEAL, Hugo. Congonhas, bíblia de cedro e de pedra. Belo Horizonte: Cenibra, 1986.

BARBOSA, Dom Marcos. As vinte e seis andorinhas. São Paulo: Editora do Brasil, 1991.

BARBOSA, Dom Marcos. Poemas para crianças e alguns adultos. Rio de Janeiro: Grafline, 1994. Poesia.

Manifestações de autonomia literária: A Escola Mineira e outros movimentos. In: História da Cultura Brasileira (2 vols., 1973-76);

 

Participação

Lúcia Benedetti (Org.). Um menino nos foi dado. In: Teatro Infantil. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1969.

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ISBN:   85-88464-07-1

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