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Dicionário de tradutores literários no Brasil



Carlos Ancêde Nougué

Perfil | Excertos de traduções | Bibliografia

Carlos Augusto Ancêde Nougué nasceu no Rio de Janeiro, em 1952, onde morou até 2000. Nesse ano mudou-se para Nova Friburgo, onde tem morado desde então, salvo por um período de dois anos em que viveu em Montevidéu. Estudou Filosofia na Escola Teológica do Mosteiro de São Bento. Desde 1990 leciona intermitentemente Língua Portuguesa e desde 2001, Filosofia Medieval em diversas instituições. Tem atuado também, desde 2004, como professor convidado de Tradução Literária no curso de especialização em Tradução de Espanhol da Universidade Gama Filho. Foi diretor e editor da editora Leviatã e fez trabalhos de edição também para as editoras Sétimo Selo, É Realizações, Topbooks e Rocco. Na área da lexicografia participou da produção e redação dos verbetes do Minidicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa Caldas Aulete publicado pela Nova Fronteira, em 2004, e do Dicionário de Português da Barsa/Planeta, de 2000.

No início de sua vida profissional, foi revisor de livros de Medicina da editora Interamericana. Depois, foi revisor e preparador de texto das editoras Rocco e Record. Em 1988 iniciou sua atividade de tradutor profissional de textos do espanhol, latim, francês e inglês. Ganhou o Prêmio Jabuti de Tradução em 1993 com Cristóvão Nonato, de Carlos Fuentes. Em 2006 foi finalista com O engenhoso fidalgo D. Quixote da Mancha, tradução realizada em colaboração com José Luis Sánchez.

Dentre as traduções feitas por Carlos Nougué, onze são romances — incluindo quatro de Carlos Fuentes e o Quixote já mencionado — três são livros de contos, três de poesia e uma novela. Além das citadas, oito são ensaios, incluindo alguns de caráter biográfico e históricos. Outros oito textos são de filosofia e teologia, dentre os quais se destacam textos de Cícero e Santo Agostinho.

Verbete publicado em 6 de outubro de 2005 por:
Pablo Cardellino
Walter Carlos Costa

Excertos de traduções

Fragmento de Do sumo bem e do sumo mal, de Marco Túlio Cícero. Tradução de Carlos Nougué:

[1,0] LIBER PRIMVS.

LIVRO PRIMEIRO

[1,1] I. (1) Non eram nescius, Brute, cum, quae summis ingeniis exquisitaque doctrina philosophi Graeco sermone tractauissent, ea Latinis litteris mandaremus, fore ut hic noster labor in uarias reprehensiones incurreret. nam quibusdam, et iis quidem non admodum indoctis, totum hoc displicet philosophari. quidam autem non tam id reprehendunt, si remissius agatur, sed tantum studium tamque multam operam ponendam in eo non arbitrantur. erunt etiam, et ii quidem eruditi Graecis litteris, contemnentes Latinas, qui se dicant in Graecis legendis operam malle consumere. postremo aliquos futuros suspicor, qui me ad alias litteras uocent, genus hoc scribendi, etsi sit elegans, personae tamen et dignitatis esse negent. (2) Contra quos omnis dicendum breuiter existimo. Quamquam philosophiae quidem uituperatoribus satis responsum est eo libro, quo a nobis philosophia defensa et collaudata est, cum esset accusata et uituperata ab Hortensio. qui liber cum et tibi probatus uideretur et iis, quos ego posse iudicare arbitrarer, plura suscepi ueritus ne mouere hominum studia uiderer, retinere non posse. Qui autem, si maxime hoc placeat, moderatius tamen id uolunt fieri, difficilem quandam temperantiam postulant in eo, quod semel admissum coerceri reprimique non potest, ut propemodum iustioribus utamur illis, qui omnino auocent a philosophia, quam his, qui rebus infinitis modum constituant in reque eo meliore, quo maior sit, mediocritatem desiderent. (3) Siue enim ad sapientiam perueniri potest, non paranda nobis solum ea, sed fruenda etiam (sapientia) est; siue hoc difficile est, tamen nec modus est ullus inuestigandi ueri, nisi inueneris, et quaerendi defatigatio turpis est, cum id, quod quaeritur, sit pulcherrimum. etenim si delectamur, cum scribimus, quis est tam inuidus, qui ab eo nos abducat? sin laboramus, quis est, qui alienae modum statuat industriae? nam ut Terentianus Chremes non inhumanus, qui nouum uicinum non uult, fodere aut arare aut aliquid ferre denique: non enim illum ab industria, sed ab inliberali labore deterret : sic isti curiosi, quos offendit noster minime nobis iniucundus labor.

I. Eu não ignorava, amigo Bruto1, quando comecei a expor em latim o que os filósofos gregos tinham tratado com máximo engenho e magnífica doutrina, que este nosso trabalho havia de estar sujeito a várias censuras. Alguns, e não de todo indoutos, reprovam todo e qualquer gênero de filosofia. Outros, sem rejeitá-la completamente, se a fazemos moderadamente, consideram mau que eu tenha votado tanto estudo e tanto trabalho a semelhante tarefa. Haverá alguns, instruídos nas letras gregas e depreciadores das latinas, que julgarão preferível ocupar o tempo com ler os gregos. Por fim, suspeito que não haverá de faltar quem me estimule a escrever acerca de outra coisa, porque não seria adequada a filosofia à dignidade da minha pessoa. A todos responderei brevemente aqui, conquanto a respeito dos detratores da filosofia tenha dito já o bastante no livro em que fiz a defesa e louvor dela, por ter sido acusada e vituperada por Hortênsio . E, tendo aprovado aquele livro tu e aqueles cujo julgamento mais em apraz, acabei por empreender coisas maiores, por receio de que, em razão de ter excitado a curiosidade dos nossos homens, não parecesse que os deixava sem satisfação. Os que, desfrutando embora deste estudo, querem que ele se faça com moderação, pedem difícil temperança em algo que, uma vez empreendido, não se pode deter nem conter; de modo que me parecem mais justos os que buscam afastar-me completamente da filosofia que os que reclamam moderação no infinito e mediania em coisa que é tanto melhor quanto maior é. Porque, se é possível chegar à sabedoria, não devemos tão-somente buscá-la, mas desfrutá-la; e, se é muito difícil alcançá-la, não é possível porém determo-nos na investigação antes de ter encontrado a verdade, por ser belíssimo o que se busca. Se nos deleitamos escrevendo, quem há de ser tão invejoso que nos queira tirar este prazer? Se trabalhamos, quem há de impor moderação à indústria alheia? Assim como o Cremes de Terêncio não quer que o seu vizinho cave nem are, nem tenha nenhum outro labor rústico, e isso por humanidade e por afastá-lo do trabalho servil, assim também fazem esses curiosos a quem ofende o nosso trabalho, que não me é nada pesado nem desagradável.

1 Marco Júlio Bruto (86-42 a.C.). Pretor, conjurou com Cássio contra César, que ambicionava o poder supremo e que, tido por seu pai, lhe disse ao vê-lo com o punhal erguido: "Também tu, meu filho!" Perseguido por Antônio e Otaviano, Bruto foi vencido na Macedônia, quando, desesperançado de salvar a República, exclamou: "Virtude!, não passas de um nome", lançando-se em seguida sobre a ponta de uma espada, que lhe traspassou o corpo. - Todas as notas de rodapé são do tradutor.

Cícero, Marco Túlio. Do sumo bem e do sumo mal. [Por: Carlos Nougué]. São Paulo: Martins Fontes, 2005. (De finibus bonorum et malorum). Filosofia. Apresentação e notas de Carlos Nougué.

Fragmento do Cantar de Mio Cid, poema épico anônimo. Tradução de Carlos Nougué, inédita1:

[1]1 El Cid convoca a sus vasallos; estos se destierran con él. (Sigue el relato de la Crónica de Veinte Reyes y se continúa con versos de una Refundición del Cantar.) - Adiós del Cid a Vivar (aquí comienza el manuscrito de Per Abbat).

[1] 2`O Cid convoca seus vassalos; estes se desterram com ele3 - Adeus do Cid a Vivar.4

[Enbió por sus parientes y vasallos, e díxoles cómmo el rey le mandava sallir de toda su tierra, e que le non daba de plazo más de nueve días, e que quería saber dellos quáles querían ir con él o quáles fincar.2]

[Convocou seus parentes e vassalos, e disse-lhes que o rei o mandara deixar toda a sua terra, e que não lhe dava de prazo mais que nove dias, e que queria saber deles quais queriam ir com ele e quais ficar.5]

"e los que conmigo fuéredes     de Dios ayades buen grado,

"Vós, os que comigo fordes,     de6 Deus haveis de ser pagos,

"e os que acá fincáredes     quiérome ir vuesto pagado."

e dos que aqui ficardes     eu despeço-me amistado."7

Entonçes fabló Álvar Fáñez     su primo cormano:3

Entonces8 falou Álvar Fáñez,     um seu primo germano:9

"Convusco iremos, Çid,     por yermos e por poblados,

"Convosco iremos, Cid,     por ermos e povoados,

"ca nunca vos fallesçeremos     en quanto seamos bivos e sanos

ca10 nunca vos faltaremos     enquanto sejamos vivos e sãos;

"convusco despenderemos     las mulas e los cavallos

convosco despenderemos     as mulas como os cavalos

"e los averes e los paños

e os haveres como os panos;11

"siempre vos serviremos     como leales amigos e vasallos."

sempre vos serviremos     como mui leais amigos e vassalos."

Entonçe otorgaron todos     quanto dixo don Álvaro;

Entonces aprovaram todos     quanto disse Dom Álvaro;

mucho gradesçio mio Çid     quanto allí fue razonado...

Muito agradeceu meu Cid     quanto ali foi razoado...12

Mio Çid movió de Bivar     para Burgos adeliñado,

Meu Cid partiu de Vivar     para Burgos encaminhado,

assí dexa sus palaçios     yermos e desheredados.

e assim deixa seus palácios     ermos e desabitados.

De los sos ojos     tan fuertemientre llorando,4

E dos seus olhos     tão fortemente chorando,13

tornava la cabeça     i estávalos catando.

virava ele a cabeça     e estava-os contemplando.

Vío puertas abiertas     e uços sim cañados,

Viu portas abertas,     postigos sem cadeado,

alcándaras vázias     sin pielles e sin mantos

cabides vazios     sem peles e sem mantos

5  

e sin falcones     e sin adtores mudados.

e sem falcões     e sem açores, mudados.14

Sospiró mio Çid,     ca mucho avie grandes cuidados.

Suspirou meu Cid,     ca havia15 mui grandes cuidados.

Fabló mio Çid     bien e tan mesurado:5

Falou meu Cid     bem e tão mesurado:16

"¡Grado a tí, señor padre,     que estás en alto!

"Louvado sejais, Padre,     que estás no alto!

"Esto me an buelto     mios enemigos malos."6

Nisto me tornam     meus inimigos maus."17

1As notas ou são do tradutor [também o é a Introdução], ou são traduções de notas preparadas por Menéndez Pidal para a sua edição do Cantar em Clásicos Castellanos. No primeiro caso serão acompanhadas de "N. do T.", e no segundo de "N. de M.". Além disso, tudo quanto venha entre colchetes nas notas, excetuados os que servem para dar alguma palavra espanhola, é de autoria do tradutor. [N. do T.]

1 Esta parte del Cantar estaba asonantada en á-o (vasallos: plazo), es decir, que pertencía a la primera serie conservada hoy en el manuscrito del poema. Por eso empezamos aquí la numeración de las series.

2 Esta parte do Cantar era marcada pela rima toante em á-o (vasallos: plazo), ou seja, pertencia à primeira série conservada hoje no manuscrito do poema. Por isso se começa aqui a numeração das séries. [N. de M.] - Na tradução para o português, nem sempre é possível manter as rimas em toda a sua pureza, e por isso nesta parte (de rima toante em á-o) se verte, por exemplo, sanos por "sãos" (< lat. sanu) ou malos por "maus" (< lat. malu). Ademais, a própria nasalização forte do português em, por exemplo, "contemplando" (ã) a faz rimar só imperfeitamente com "cadeado" (á) (enquanto em espanhol se dá rima perfeita: catando e cañados têm ambas a tônica oral aberta). [N. do T.]

3 Trata-se aqui de parte do relato da Crônica de Vinte Reis, à qual se seguem versos de uma Segunda Refundição do Cantar (vide Introdução). [N. do T.]

4 Começa aqui o manuscrito de Per Abbat (vide Introdução). [N. do T.]

2 Según el Fuero Viejo de Castilla, los vasallos del señor desterrado tenían obligación de acompañarle hasta que hallase medio de vivir en el destierro.

5 Segundo o Fuero Viejo de Castilla, os vassalos do senhor desterrado tinham obrigação de acompanhá-lo até ele encontrar meios de viver no desterro. [N. de M.]

6 DE: "por" [N. do T.]

7AMISTADO: "amigavelmente, como amigo". [N. do T.]

8 ENTONCES: "então". [N. do T.]

3 [primo cormano, 'primo hermano'. De otros pasages del CMC se deduce que Álvar Fánez era más bien sobrino del Cid, pues llama "primas" a sus hijas (vv. 2846, 2858, 3438).]

9 PRIMO GERMANO: "primo irmão". [N. do T.] - De outras passagens do Cantar se deduz que Álvar Fánez era antes sobrinho do Cid, pois chama "primas" às filhas deste (vv. 2846, 2858, 3438). [N. de M.]

10 CA: "pois". [N. do T.]

11 OS HAVERES COMO OS PANOS: "o dinheiro e as roupas". [N. do T.]

12 RAZOADO: "dito, discursado". [N. do T.]

4 [Con este verso comienza el manuscrito del CMC. La eficacia estética de este fragmento inicial, que construye con muy escasos elementos una visión desolada de las posesiones que el desterrado va a dejar atrás de inmediato, há hecho pensar a algunos críticos que la hoja que falta al inicio del manuscrito del CMC estaba en blanco, y que el comienzo del texto conservado es el original, y se trata, por tanto, de un comienzo in medias res, artificio retórico habitual en la épica. Sin embargo, el anafórico estávalos del v. 2 exige un antecedente (los palaçios mencionados en el texto reconstruido a partir de las crónicas), lo que demuestra que falta texto. Es muy eficaz el dibujo que hace el juglar, con muy pocos trazos, de Rodrigo Díaz de Vivar: en medio de una gran desgracia aparece afectado pero sereno (la fórmula "llorar de los ojos" - frecuente en el CMC, vv. 18, 370, 2023, 2863 - no es pleonástica, sino que hace referencia al llorar sólo con lágrimas, sin gritos ni gestos - mesarse los cabellos, romperse los vestidos - de los que solían acompañar el llanto), y sereno en la constatación del origen de su desgracia (vv. 7-9). En esa caracterización ya se señala, por sucesivas designaciones metonímicas, la mesura como rasgo esencial del héroe.]

13 Com este verso começa o manuscrito do Cantar. A eficácia estética deste fragmento inicial [ou dos cinco versos iniciais], que constrói com pouquíssimos elementos uma visão desolada das posses que o desterrado vai imediatamente deixar para trás, fez alguns críticos pensar que a folha que falta ao início do manuscrito do Cantar [vide Introdução] estava em branco, e que o começo do texto conservado é o original, e se trata, portanto, de um começo in medias res, artifício retórico habitual na épica. Não obstante, o anafórico "estava-os" [estávalos] do verso 2 exige um antecedente (os "palácios" [palaçios] mencionados no texto reconstruído a partir das crônicas), o que demonstra que falta texto. É muito eficaz o retrato que faz o jogral, com muito poucos traços, de Rodrigo Díaz de Vivar: em meio a uma grande desgraça, ele aparece comovido mas sereno (a fórmula "chorar dos olhos" [llorar de los ojos] - freqüente no Cantar, vv. 18, 370, 2023, 2863 - não é pleonástica, mas faz referência ao chorar só com lágrimas, sem os gritos nem os gestos - arrancar os cabelos, rasgar as roupas - que costumavam acompanhar o pranto), e sereno na constatação da origem de sua desgraça (vv. 7-9). Nesta caracterização já se assinala, por sucessivas designações metonímicas, a mesura [ou comedimento] como traço essencial do herói. [N. de M.]. - Menéndez Pidal e outros comentaristas viram neste "chorar dos olhos" um influxo da Chanson de Roland, na qual aparece oito vezes a fórmula "pleurer des oilz", o que indicaria uma construção poética comum a toda a Europa novilatina do século XII. Mas também se pode fazer derivar esta construção geral de uma inspiração de textos muito mais antigos, como o Eclesiástico, em cujo capítulo XII (16-18) se lê: "in oculis satis lacrymatur". [N. do T.]

14 Ou seja, nos cabides (ou estaqueiras) vazios de peles e mantos já não pousam falcões nem açores, que dali se mudaram. [N. do T.]

15 HAVIA: "tinha". [N. do T.]

5 El fablar tan mesurado, 'tão comedidamente', era una virtud muy estimada en un caballero.

16 O "falar tão mesurado" (ou tão comedidamente) era uma virtude muito estimada num cavaleiro. [N. de M.]

6 El Cid alude a los que lo acusaron falsamente ante el rey (comp. con v. 267).

17 O Cid alude aos que o acusaram falsamente diante do rei (compare-se com v. 267 [e com o v. 1836]). [N. de M.]

Anônimo. Poema del Cid. Madri: Ediciones de "La Lectura" (Clásicos Castellanos), 1913, versos 1-9. Edição e notas de Ramón Menéndez Pidal

Anônimo. Cantar de Mio Cid. [Por: Carlos Nougué]. Tradução inédita. Versos 1-9. (Poema del Cid). Notas de Ramón Menéndez Pidal e do tradutor.

Fragmento do conto "A cruz azul", de G.K. Chesterton. Tradução de Carlos Nougué:

He looked at the vessel from which the silvery powder had come; it was certainly a sugar-basin; as unmistakably meant for sugar as a champagne-bottle for champagne. He wondered why they should keep salt in it. He looked to see if there were any more orthodox vessels. Yes; there were two salt-cellars quite full. Perhaps there was some speciality in the condiment in the salt-cellars. He tasted it; it was sugar. Then he looked round at the restaurant with a refreshed air of interest, to see if there were any other traces of that singular artistic taste which puts the sugar in the salt-cellars and the salt in the sugar-basin. Except for an odd splash of some dark fluid on one of the white-papered walls, the whole place appeared neat, cheerful and ordinary. He rang the bell for the waiter.

Olhou para o recipiente de que saíra o pó prateado; era indubitavelmente um açucareiro, tão inequivocamente destinado a açúcar como o é uma garrafa de champanhe a champanhe. Não entendia como tinham podido pôr sal nele. Olhou para ver se havia ali alguns recipientes mais ortodoxos. Sim, havia dois saleiros totalmente cheios. Talvez houvesse alguma qualidade especial no condimento daqueles saleiros. Provou-o - era açúcar. Olhou então em volta com renovado ar de interesse, para ver se havia no restaurante quaisquer outros traços daquele singular gosto artístico que levava a pôr açúcar nos saleiros e sal nos açucareiros. À exceção de uma mancha de líquido algo escuro numa das paredes empapeladas de branco, tudo o mais se mostrava limpo, agradável e comum. Tocou a campainha para chamar o garçom.

When that official hurried up, fuzzy-haired and somewhat blear-eyed at that early hour, the detective (who was not without an appreciation of the simpler forms of humour) asked him to taste the sugar and see if it was up to the high reputation of the hotel. The result was that the waiter yawned suddenly and woke up.

Quando o empregado chegou afobado, despenteado e meio remelento àquela hora da manhã, pediu-lhe o detetive - a quem não faltava o gosto das formas de humor mais simples - que provasse o açúcar e visse se aquilo estava à altura da reputação da casa. O resultado foi que o garçom bocejou subitamente e terminou de acordar.

"Do you play this delicate joke on your customers every morning?" inquired Valentin. "Does changing the salt and sugar never pall on you as a jest?"

- Todas as manhãs os senhores fazem brincadeirinhas delicadas como esta com os fregueses? - perguntou Valentin. - Não se cansam nunca de trocar o sal e o açúcar?

The waiter, when this irony grew clearer, stammeringly assured him that the establishment had certainly no such intention; it must be a most curious mistake. He picked up the sugar-basin and looked at it; he picked up the salt-cellar and looked at that, his face growing more and more bewildered. At last he abruptly excused himself, and hurrying away, returned in a few seconds with the proprietor. The proprietor also examined the sugar-basin and then the salt-cellar; the proprietor also looked bewildered.

O garçom, ao entender a ironia, assegurou-lhe gagamente que não era tal a intenção do estabelecimento, que aquilo era um estranho engano. Pegou no açucareiro e olhou-o; pegou no saleiro e olhou-o, cada vez mais espantada a expressão. Por fim, desculpou-se abruptamente, e, sempre apressadamente, voltou poucos segundos depois com o proprietário. Também o proprietário examinou o açucareiro e o saleiro; também ele parecia muito espantado.

Suddenly the waiter seemed to grow inarticulate with a rush of words.

De repente, o garçom pareceu tornar-se tatibitate com uma precipitação de palavras.

"I zink," he stuttered eagerly, "I zink it is those two clergy-men."

- Eu "aço" - disse gaguejando açodadamente -, eu "aço" que foram aqueles dois sacerdotes.

"What two clergymen?"

- Que sacerdotes?

"The two clergymen," said the waiter, "that threw soup at the wall."

- Os dois sacerdotes - respondeu o garçom - que jogaram a sopa na parede.

"Threw soup at the wall?" repeated Valentin, feeling sure this must be some singular Italian metaphor.

- Que jogaram a sopa na parede? - repetiu Valentin, imaginando certamente que se tratasse de alguma singular metáfora italiana.

"Yes, yes," said the attendant excitedly, and pointed at the dark splash on the white paper; "threw it over there on the wall."

- Isso, isso - disse o empregado excitadamente, e apontando para a mancha escura no papel branco -, eles a jogaram ali, na parede.

Valentin looked his query at the proprietor, who came to his rescue with fuller reports.

Olhou Valentin com ar de interrogação para o proprietário, e este foi em seu socorro com um relato mais substancial:

"Yes, sir," he said, "it's quite true, though I don't suppose it has anything to do with the sugar and salt. Two clergymen came in and drank soup here very early, as soon as the shutters were taken down. They were both very quiet, respectable people; one of them paid the bill and went out; the other, who seemed a slower coach altogether, was some minutes longer getting his things together. But he went at last. Only, the instant before he stepped into the street he deliberately picked up his cup, which he had only half emptied, and threw the soup slap on the wall. I was in the back room myself, and so was the waiter; so I could only rush out in time to find the wall splashed and the shop empty. It don't do any particular damage, but it was confounded cheek; and I tried to catch the men in the street. They were too far off though; I only noticed they went round the next corner into Carstairs Street."

- Sim, cavalheiro, isso é a mais absoluta verdade, embora eu acredite que não tenha nada que ver com o sal e o açúcar. Dois sacerdotes chegaram aqui muito cedo, assim que abrimos as portas, e tomaram sopa. Eram pessoas muito pacíficas e respeitáveis; um deles pagou a conta e saiu; o outro, que parecia completamente lerdo, levou uns bons minutos para recolher todas as suas coisas. Mas por fim se foi. Um instante antes de pôr o pé na rua, porém, deliberadamente pegou na tigela, que estava pela metade, e de golpe atirou a sopa na parede. Eu estava na peça dos fundos, e o garçom também; por isso, embora tivesse corrido muito, só pude chegar a tempo de ver a parede manchada e o restaurante vazio. Não é um prejuízo muito grande, mas é um abominável atrevimento; e tentei alcançar os dois homens na rua. Mas já iam muito longe; só pude ver que iam dobrar a próxima esquina da Rua Carstairs.

Chesterton, G. K. . "A cruz azul". In: The Innocence of Father Brown.

Chesterton, G. K.. "The Blue Cross". In: A inocência do Padre Brown. [Por: Carlos Nougué]. Rio de Janeiro: Sétimo Selo, 2006. (The Innocence of Father Brown). Contos policiais. Estudo introdutório de Rosa Nougué. Notas de Carlos Nougué.

"Soneto III", de Francisco de Quevedo y Villegas. Tradução de Carlos Nougué:

¡Fue sueño ayer; mañana será tierra!

Poco antes, nada; y poco después, humo!

Y destino ambiciones, y presumo

apenas punto al cerco que me cierra!

Foi sonho ontem; amanhã já será terra!

Pouco antes nada; e pouco depois, fumo!

E destino ambições, e pois presumo

Apenas ponto o cerco que me encerra.

Breve combate de importuna guerra,

en mi defensa, soy peligro sumo;

y mientras con mis armas me consumo,

menos me hospeda el cuerpo que me entierra.

Breve combate de importuna guerra,

defendendo-me sou perigo sumo;

e, enquanto com estas armas me consumo,

menos me hospeda o corpo que me enterra.

Ya no es ayer; mañana no ha llegado;

hoy pasa, y es, y fue, con movimiento

que a la muerte me lleva despeñado.

Já não é ontem; o amanhã não é chegado;

hoje passa, e é, e foi com movimento

que pra morte me leva despenhado.

Azadas son la hora y el momento

que, a jornal de mi pena y mi cuidado,

cavan en mi vivir mi monumento.

Enxadas são a hora e o momento,

que, à jorna de sofrer e de cuidado,

cavam em meu viver meu monumento.

Bibliografia

Traduções Publicadas

Arenas, Reinaldo. O mundo alucinante. [Por: Carlos Nougué]. Rio de Janeiro:: Record, 2000. (El mundo alucinante). Romance.

Arrabal, Fernando. Um escravo chamado Cervantes. [Por: Carlos Nougué]. Rio de Janeiro: Record, 1997. (Um esclavo llamado Cervantes). Ensaio biográfico.

Balzac, Honoré de. O amor mascarado. [Por: Carlos Nougué]. Rio de Janeiro: Bom Texto, 2003. (L'amour masqué). Romance.

Balzac, Honoré de. Tratado dos estimulantes modernos. [Por: Carlos Nougué & Zilda Hutchinson Schild Silva). São Paulo: Landy, 2003. (Traité des excitants modernes). Essay.

Bergsson, Gudbergur. O cisne. [Por: Carlos Nougué]. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. (Tradução da versão espanhola do original em islandês: Svanurinn). Romance.

Bona, Dominique. Stefan Zweig : uma biografia. [Por: Carlos Nougué & João Domenech Oneto]. Rio de Janeiro:: Record, 1999. (Stefan Zweig). Romance.

Boutroux, Émile. Aristóteles. [Por: Carlos Nougué]. Rio de Janeiro: Record, 1999. (Aristote). Filosofia. Introdução e notas de Olavo de Carvalho.

Carrère, Emmanuel. Férias na neve. [Por: Carlos Nougué]. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. (La classe de neige). Romance.

Carter, Angela. O quarto de Barba-Azul. [Por: Carlos Nougué]. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. (The Bloody Chamber and Other Stories). Contos.

Cervantes, Miguel de. O engenhoso fidalgo D. Quixote da Mancha. [Por: Carlos Nougué & José Luis Sánchez]. Rio de Janeiro: Record, 2005. (El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha). Romance (Inclui poemas). Notas dos tradutores.

Chesterton, G. K.. A inocência do Padre Brown. [Por: Carlos Nougué]. Rio de Janeiro: Sétimo Selo, 2006. (The Innocence of Father Brown). Contos policiais. Estudo introdutório de Rosa Nougué. Notas de Carlos Nougué.

Chesterton, G. K.. Santo Tomás de Aquino. [Por: Carlos Nougué]. Nova Friburgo: Co-Redentora, 2002. (St. Thomas Aquinas). Ensaio filosófico-biográfico. Estudo introdutório de Rosa Clara Elena. Notas de Carlos Nougué.

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Fuentes, Carlos. A laranjeira. [Por: Carlos Nougué]. Rio de Janeiro: Rocco, 1996. (El naranjo). Novelas.

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Obra própria

Verbetes em dicionários

Verbetes no Minidicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa Caldas Aulete. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.

Verbetes no Dicionário de Português. Rio de Janeiro: Barsa/Planeta, 2000.

Organização de livros

Santo Tomás de Aquino. Sobre a natureza dos Anjos (Tratactus de Substantiis separatis) [Por: Luiz Astorga]. Rio de Janeiro: Sétimo Selo, 2006. Notas e revisão da tradução: Carlos Nougué.

Elizabeth Orsini. Cartas do coração, coletânea. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. Organização: Carlos Nougué.



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