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Dicionário de tradutores literários no Brasil


Augusto Meyer

Perfil | Excertos de traduções | Bibliografia

Augusto Meyer nasceu na capital gaúcha em 24 de janeiro de 1902. Autodidata, completou os estudos básicos na cidade natal. Iniciou a faculdade de Direito, mas abandonou o curso para estudar línguas e literatura. Iniciou a carreira de escritor trabalhando nos jornais gaúchos Correio do Povo e Diário de Notícias, e foi na Página Literária do último que propagou a passagem do simbolismo para o modernismo, vivendo intensamente esse momento de transição.

Meyer, que assinava também com o pseudônimo de Guido Leal, publicou seu primeiro livro de poesia, Ilusão Querida, em 1923. É conhecido pela introdução de feições regionalistas no simbolismo, primeiro, e no modernismo, depois. Ocupante de cargos de grande prestígio foi Diretor da Biblioteca do Estado do Rio Grande do Sul, Diretor no Instituto Nacional do Livro no Rio de Janeiro, Presidente da Associação Brasileira de Bibliotecários e Membro da Academia Brasileira de Letras. Dedicou-se também a docência, lecionando literatura na Faculdade de Direito de Porto Alegre, na Universidade do Brasil (hoje, UFRJ) e na Universidade de Hamburgo, Alemanha.

Além de desempenhar papéis de suma importância para a sociedade acadêmica brasileira de meados no século XX, Meyer foi um dos fundadores da Sociedade dos Amigos de Machado de Assis, Fundação Eduardo Guimarães e da revista porto-alegrense Madrugada. Foi homenageado com os prêmios Filipe de Oliveira e Machado de Assis.

Augusto Meyer publicou vinte e três livros de sua autoria, em sua grande maioria de poesia ou crítica literária, e algumas traduções, com destaque para a obra gauchesca Dom Segundo Sombra, do argentino Ricardo Güiraldes, que foi reeditada várias vezes: recentemente, faz parte da coleção L&PM Pocket.

Ensaísta, jornalista, poeta, memorialista, crítico literário – e também com alguma produção no campo das artes plásticas – Augusto Mayer foi um importante intelectual brasileiro. Faleceu vítima de pneumonia em 10 de julho de 1970, no Rio de Janeiro.

Verbete publicado em 19 de July de 2016 por:
Lara Torronteguy Brasil
Marie-Hélène Catherine Torres
Pablo Cardellino

Excertos de traduções

Poema “O navio negreiro”, de Heinrich Heine. Tradução de Augusto Meyer.

Der Superkargo Mynheer van Koek
Sitzt rechnend in seiner Kajüte;
Er kalkuliert der Ladung Betrag
Und die probabeln Profite.

»Der Gummi ist gut, der Pfeffer ist gut,
Dreihundert Säcke und Fässer;
Ich habe Goldstaub und Elfenbein -
Die schwarze Ware ist besser.

Sechshundert Neger tauschte ich ein
Spottwohlfeil am Senegalflusse.
Das Fleisch ist hart, die Sehnen sind stramm,
Wie Eisen vom besten Gusse.

O sobrecarga Mynherr van Koek
Calcula no seu camarote
As rendas prováveis da carga,
Lucro e perda em cada lote.

"Borracha, pimenta, marfim
E ouro em pó... Resumindo, eu digo:
Mercadoria não me falta
Mas o negro é o melhor artigo.

Seiscentas peças barganhei
-Que pechincha! - no Senegal;
A carne é rija, os músculos de aço,
Boa liga do melhor metal.

Heine, Heinrich. Das Sklavenschiff. Paris: [s.e], 1853.

Heine, Heinrich. O navio negreiro. [Por: Augusto Meyer]. Campinas: Remate de Males, Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, 1984.

Fragmento de Dom Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes. Tradução de Augusto Meyer.

Como fuéramos por llegar, comenzó a preocuparme mi vestuario. Nada había mudado de mis pilchas; sólo quise renovar mi chiripá, mis botas, mi chambergo, una camisa y el pañuelo del pescuezo, para estar paquete, eso sí, pero conservando mi traje de paisano. (Cap. XXVI)

Como estivéssemos para chegar, começou a preocupar-me o vestuário. Nada havia mudado em minhas pilchas; só quis renovar meu chiripá, minhas botas, o chambergo, uma camisa e o lenço de pescoço, para estar em dia, isso sim, mas conservando meu traje de paisano. (Cap. XXVI: 228)

 

 

Güiraldes, Ricardo. Don segundo Sombra. Buenos Aires: Ed. Del Cardo, 2003.

Güiraldes, Ricardo. Dom Segundo Sombra. [Por: Augusto Meyer]. Porto Alegre: L&PM Pocket, 1997. (Don Segundo Sombra).

Excerto de Bouvard e Pécuchet, de Gustave Flaubert. Tradução de Augusto Meyer.

Tout à coup un ivrogne traversa en zigzag le trottoir ; — et à propos des ouvriers, ils entamèrent une conversation politique. Leurs opinions étaient les mêmes, bien que Bouvard fût peut-être plus libéral.

De repente, um ébrio atravessou em ziguezague o passeio; e, a propósito dos operários, iniciaram uma conversa política. Partilhavam da mesma opinião, embora Bouvard fosse talvez mais liberal.

Un bruit de ferrailles sonna sur le pavé, dans um tourbillon de poussière. C’étaient trois calèches de remise qui s’en allaient vers Bercy, promenant une mariée avec son bouquet, des bourgeois en cravate blanche, des dames enfouies jusqu’aux aisselles dans leur jupon, deux ou trois petites filles, un collégien. La vue de cette noce amena Bouvard et Pécuchet à parler des femmes, — qu’ils déclarerent frivoles, acariâtres, têtues. Malgré cela, elles étaient souvent meilleures que les hommes, d’autres fois elles étaient pires. Bref, il valait mieux vivre sans elles; aussi Pécuchet était resté célibataire.

Um ruído de ferragens ressoou no calçamento, num turbilhão de pó: eram três caleças de aluguel que iam rumo a Bercy, conduzindo uma noiva com o seu buquê, burgueses de gravata branca, senhoras metidas em suas saias até as axilas, duas ou três mocinhas, um colegial. A visão do cortejo nupcial induziu Bouvard e Pécuchet a falar das mulheres, que consideravam frívolas, rabugentas, teimosas. Não obstante, eram quase sempre melhores do que os homens; uma vez ou outra, piores. Em suma, seria mais acertado viver sem elas; por isso, Pécuchet decidira conservar-se solteiro.

— « Moi le suis veuf » dit Bouvard « et sans enfants ! »

— Quanto a mim — disse Bouvard — sou viúvo e não tenho filhos.

— « C’est peut-être un bonheur pour vous ? » Mais la solitude a la longue était bien triste.

— Talvez seja uma felicidade para o senhor, mas a solidão, com o tempo, se torna bem triste.

Puis, au bord du quai, parut une fille de joie, avec un soldat. Blême, les cheveux noirs et marquée de petite vérole, elle s’appuyait sur le bras du militaire, en traînant ses savates et balançant les hanches.

Depois, apareceu à beira do cais uma prostituta com um soldado. Lívida, de cabelos negros, marcada pelas bexigas, apoiava-se aos braços do militar, arrastando as chinelas e balançando as ancas.

Quand elle fut plus loin, Bouvard se permit une réflexion obscène. Pécucher devint très rouge, et sans doute pour s’éviter de répondre, lui désigna du regard un prêtre qui s’avançait. L’ecclésiastique descendit avec lenteur l’avenue des maigres ormeaux jalonnant le trottoir, et Bouvard dès qu’il n’aperçut plus le tricorne, se déclara soulagé car il exécrait les jésuites. Pécuchet, sans les absoudre, montra quelque déférence pour la religion.

Quando já iam longe, Bouvard arriscou um comentário obsceno. Pécuchet enrubesceu e, certamente para evitar uma resposta, apontou com os olhos um padre que se aproximava. O eclesiástico desceu lentamente a avenida de olmeiros esqueléticos, alinhados na calçada. Bouvard, quando não divisou mais o tricórnio, confessou-se aliviado, porquanto execrava os jesuítas. Sem absolvê-los, Pécuchet mostrou alguma deferência pela religião.

Cependant le crépuscule tombait et des persiennes en face s’étaient relevées. Les passants devinrent plus nombreux. Sept heures sonnèrent.

Entrementes, o crepúsculo baixara, as persianas das casas em frente haviam sido levantadas. Os transeuntes tornaram-se mais numerosos. Bateram sete horas.

Leurs paroles coulaient intarissablement, les remarques succédant aux anecdotes, les aperçus philosophiques aux considérations individuelles. Ils dénigrèrent le corps des Ponts et chaussées, la régie des tabacs, le commerce, les théâtres, notre marine et tout le genre humain, comme des gens qui ont subi de grands déboires. Chacun en écoutant l’autre retrouvait des parties de lui-même oubliées ; — et bien qu’ils eussent passé l’âge des émotions naïves, ils éprouvaient un plaisir nouveau, une sorte dépanouissement, le charme des tendresses à leur début.

Mas os dois homens continuavam a palestrar; comentários seguiam-se a anedotas, os conceitos filosóficos às considerações de caráter pessoal. Criticaram os encarregados das obras públicas, o monopólio do tabaco, o comércio, os teatros, a marinha, toda a humanidade; falavam como quem já houvesse passado pelas maiores amarguras. Ouvindo-se um ao outro, como que reencontravam esquecidos fragmentos de si próprios. E, conquanto tivessem já transposto a idade das emoções ingênuas, experimentavam um prazer novo, uma espécie de desafogo, o prazer de uma nova amizade.

Vingt fois ils s’étaient levés, s’étaient rassis et avaient fait la longueur du boulevard depuis l’écluse d’amont jusqu’à l’écluse d’aval, chaque fois voulant s’en aller, nen ayant pas la force, retenus par une fascination.

Vinte vezes se tinham levantado e tornado a sentar e feito o trajeto do bulevar, de uma a outra comporta, de montante a jusante, de cada vez querendo retirar-se, sem ânimo para fazê-lo, como que retidos por uma fascinação.

Ils se quittaient pourtant, et leurs mains étaient jointes, quand Bouvard dit tout à coup :

Entretanto, já iam separar-se e apertavam-se as mãos, quando Bouvard exclamou:

— « Ma foi! si nous dînions ensemble ? »

— Ora bolas! E se fôssemos jantar juntos?

— « J’en avais l’idée ! » reprit Pécuchet « mais je n’osais pas vous le proposer ! »

— Tive a mesma idéia — replicou Pécuchet —, mas não ousei fazer-lhe a proposta!

Et il se laissa conduire en face de l’Hôtel de Ville, dans un petit restaurant où l’on serait bien.

E deixou-se conduzir a um pequeno restaurante situado em frente da Prefeitura, onde se ficava à vontade.

Bouvard commanda le menu.

Bouvard incumbiu-se do cardápio.

 

 

Flaubert, Gustave. Bouvard e Pécuchet. Paris: Gallimard, 1979, pp. 53-55. Édition présentée et établie par Claudine Gothot-Mersch.

Flaubert, Gustave. Bouvard e Pécuchet. [Por: Galeão Coutinho & Augusto Meyer]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, pp. 8–9. (Bouvard et Pécuchet). Romance.

Bibliografia

Traduções Publicadas

Güiraldes, Ricardo. Dom Segundo Sombra. [Por: Augusto Meyer]. Porto Alegre: L&PM Pocket, 1997. (Don Segundo Sombra). Romance.

Flaubert, Gustave. Bouvard e Pécuchet. [Por: Galeão Coutinho & Augusto Meyer]. São Paulo: Melhoramentos, 1960. (Bouvard et Pécuchet). Romance.

Heine, Heinrich. O navio negreiro. [Por: Augusto Meyer]. Campinas: Revista Remate de Males, Departamento de Teoria Literária, Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, 1984. (Das Sklavenschiff). Artigo.

Hauptmann, Gerhart. O herege de Soana e Michael Kramer. [Por: Augusto Meyer & Herbert Caro, respectivamente]. Rio de Janeiro: Opera Mundi, 1973. (Der Ketzer von Soana). Romance. Estudo introdutivo de Félix A. Voight. Ilustrações de R. Savary. Prêmio Nobel de Literatura, 1912.

Obra própria

 

Meyer, Augusto. A ilusão querida. Porto Alegre: Tip. do Centro, 1923. Poesia.

Meyer, Augusto. Coração verde. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1926. Poesia.

Meyer, Augusto. Giraluz. Porto Alegre: Globo, 1928. Poesia.

Meyer, Augusto. Duas orações. Porto Alegre: Globo, 1928. Poesia.

Meyer, Augusto. Poemas de Bilu. Porto Alegre: Globo, 1929. Poesia.

Meyer, Augusto. Sorriso interior. Porto Alegre: Globo, 1930. Poesia.

Meyer, Augusto. Literatura e poesia. Porto Alegre: Tip. Thurmann, 1931. Poesia.

Meyer, Augusto. Machado de Assis. Porto Alegre: Globo, 1935. Crítica e Ensaio.

Meyer, Augusto. Prosa dos pagos. São Paulo: Martins, 1943. Crítica e Ensaio.

Meyer, Augusto. À sombra da estante. Ensaios. Rio de Janeiro: José Olympio, 1947. Crítica e Ensaio.

Meyer, Augusto. Segredos da infância. Porto Alegre: Globo, 1949. Memórias.

Meyer, Augusto. Guia do folclore gaúcho. Rio de Janeiro: Aurora, 1951. Folclore.

Meyer, Augusto. Cancioneiro gaúcho. Porto Alegre: Globo, 1952. Folclore.

Meyer, Augusto. Le Bateau Ivre: Análise e Interpretação. Rio de Janeiro: Livr. São José, 1955.

Meyer, Augusto. Preto & branco. Rio de Janeiro: INL/MEC, 1956. Crítica e Ensaio.

Meyer, Augusto.

Poesias (1922-1955). Rio de Janeiro: Livr. São José, 1957. Poesia.

Meyer, Augusto. Gaúcho, história de uma palavra. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1957. Cadernos do Rio Grande, V. Crítica e Ensaio.

Meyer, Augusto. Camões o Bruxo e outros estudos. Rio de Janeiro: Livr. São José, 1958. Crítica e Ensaio.

Meyer, Augusto. A chave e a máscara. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1964. Crítica e Ensaio.

Meyer, Augusto. A forma secreta. Rio de Janeiro: Lidador, 1965. Crítica e Ensaio.

Meyer, Augusto. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura, 1966.Org. de Ovídio Chaves. Poesia.

Meyer, Augusto. No tempo da flor. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1966. Memórias.

Meyer, Augusto. Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília: INL/MEC, 1973. Org. de Darci Damasceno. Folclore.

Meyer, Augusto; Tânia Franco Carvalhal (Org.). Os pêssegos verdes. Rio de Janeiro: ABL, 2002. Ensaio.

Meyer, Augusto. Melhores poemas. São Paulo : Global, 2002. Seleção Tania Franco Carvalhal.

Meyer, Augusto. Ensaios escolhidos. Rio de Janeiro : J. Olympio, 2007. Seleção e prefácio de Alberto da Costa e Silva.

Meyer, Augusto. Gaucho: história de uma palavra. [Porto Alegre]: Instituto Estadual do Livro, Divisão de cultura, [1957].

Meyer, Augusto. Textos críticos. São Paulo: Perspectiva/INL, 1986.

Outras produções

Juvenal, Amaro. Antonio Chimango: Poemeto campestre. Porto Alegre: Editora Globo, 1952. Coleção Província v. 5. Prefácio de Augusto Meyer. Notas de Augusto Meyer e Oscar Bastian Pinto. Posfácio de Alfredo Simch.

Lopes Neto, J. Simões. Contos Gauchescos e Lendas do Sul. Porto Alegre: Editora Globo, 1950. Prefácio de Augusto Meyer.

Ribeiro, João. O Fabordão. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1964. Prefácio de Augusto Meyer.

Machado de Assis, Joaquim Maria. Memórias póstumas de Brás Cubas. Apresentação de Augusto Meyer.

Burmeister, Hermann. Viagem ao Brasil. Belo Horizonte, Brasil : Editora Itatiaia ; [São Paulo] : Editora da Universidade de São Paulo, 1980. Translation of: Reise nach Brasilien. Tradução de Manoel Salvaterra e Hubert Schoenfeldt ; nota bio-bibliográfica de Augusto Meyer.

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ISBN:   85-88464-07-1

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Apoio:

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