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Dicionário de tradutores literários no Brasil


Andrei dos Santos Cunha

Perfil | Excertos de traduções | Bibliografia

Andrei dos Santos Cunha, natural da cidade de Pelotas (RS), nasceu em 15 de junho de 1973. Graduou-se em Direito japonês (Universidade de Hitotsubashi, Tóquio, 1999); tornou-se mestre em Relações Internacionais pela mesma universidade em 2001 e, após retornar ao Brasil, doutorou-se em Literatura Comparada (UFRGS, 2016).

Atuou desde jovem no ensino de línguas. Desde 2010, é professor de língua, literatura, cultura e tradução no Bacharelado em Letras — Tradutor Português e Japonês da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e desde 2018 no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRGS. Está credenciado para atuar como tradutor juramentado e intérprete comercial de japonês, francês e inglês.

Andrei vem de uma família muito próxima ao universo literário, com pai e mãe professores de literatura. Aos vinte anos, foi fazer graduação no Japão com bolsa do Ministério da Educação japonês. Viveu sete anos em Tóquio, onde fez seus estudos integralmente em japonês. Envolveu-se em seu primeiro projeto de tradução por acaso, quando se tornou membro do fã-clube de um grupo japonês de música pop (Pizzicato Five), o que o levou a traduzir, entre 1996 e 2000, cerca de 200 letras de canções do japonês para o inglês.

Tem traduzido poesia e prosa de importantes escritores japoneses. Quando voltou ao Brasil, a filósofa Márcia Tiburi foi a primeira a lhe encomendar uma tradução de obra literária — para a editora que comandava na época, a Escritos, de Porto Alegre. Hoje em dia, Andrei realiza trabalhos para editoras comerciais, assim como projetos mais pessoais. Vive com o marido desde 2002. Tem interesse por teoria queer e escreveu textos sobre o escritor Mishima Yukio e sobre o cineasta Sergei Eisenstein a partir dessa perspectiva. Na área de Estudos de Tradução, realiza desde 2013 um mapeamento das traduções de obras literárias japonesas publicadas no Brasil.

Andrei conta que sua orientadora no doutorado na UFRGS, Rita Terezinha Schmidt — importante teórica feminista da área da literatura no Brasil —, teve profunda influência sobre sua visão de mundo. Ele acredita que, apesar de reivindicarem um discurso supostamente universalista, a teoria da tradução e a teoria da literatura são muito eurocêntricas e não dão conta de realidades fora desse eixo. Por ter feito mestrado em Relações Internacionais, um de seus projetos futuros é o de relacionar a teoria da Política Internacional à teoria da Literatura Comparada, pois acredita que as duas coisas estão intimamente relacionadas. 

 

Verbete publicado em 15 de May de 2020 por:
Marlova Gonsales Aseff
Andréia Guerini

Excertos de traduções

Poemas. Tradução de Andrei dos Santos Cunha.

Sone no Yoshitada
(poema 46, p. 133)

由良の門を
渡る舟人
かぢを絶え
ゆくへも知らぬ
恋の道かな

atravessando o estreito
de Yura o barqueiro
perde seu remo
perde seu rumo
como eu no amor

Murasaki Shikibu
(poema 57, p. 155)

めぐり逢ひて
見しやそれとも
わかぬ間に
雲隠れにし
夜半の月かな

de repente te vi
será que era mesmo
antes que eu soubesse
escondeu-se nas nuvens
a lua da madrugada

Ex-Imperador Sutoku
(poema 77, p. 195)

瀬を早み
岩にせかるる
滝川の
われても末に
逢はむとぞ思ふ

nas corredeiras a água
ligeira encontra uma
pedra divide o rio em dois
podem nos separar
nos reencontramos no fim

Ex-Imperador Gotoba
(poema 99, p. 239)

人もをし
人もうらめし
あぢきなく
世を思ふゆゑに
物思ふ身は

eu amo as pessoas
eu odeio as pessoas
não consigo evitar
quanto mais penso
mais confuso fico

Cunha, Andrei dos Santos. Cem poemas de cem poetas: a mais querida antologia poética do Japão. [Por Andrei dos Santos Cunha]. Porto Alegre: Bestiário/Class, 2019. (Ogura Hyakunin Isshu). Conto. Tradução crítica com introdução, notas e biografias dos poetas da coletânea poética do século XIII Ogura Hyakunin Isshu. Edição bilíngue.

Excerto de Histórias da outra margem, de Nagai Kafû. Tradução de Andrei dos Santos Cunha.

 

「名は何と云う。」

— Nome?

「大江匡。」と答えた時、巡査は手帳を出した。

— Tadasu Ôe.

 巡査はだまれと言わぬばかり、わたくしの顔を睨み、手を伸していきなりわたくしの外套の釦をはずし、裏を返して見て、

O policial pegou um caderninho. Sem avisar, abriu o botão do meu casaco, virou-o do avesso, e comentou:

「記号はついていないな。職業は。」

— Sem marca. Profissão?

「何にもしていません。」

— Não tenho.

「無職業か。年はいくつだ。」

— Desocupado. Idade?

「己の卯です。」

— Sou do signo de coelho, elemento terra, de ano yin.

「いくつだよ。」

— Eu disse idade.

「明治十二年己の卯の年。」それきり黙っていようかと思ったが、後がこわいので、「五十八。」

— Sou de Meiji 12, ano do coelho, elemento terra, yin — e mais não queria dizer, mas começara a ficar com medo daquele interrogatório, então resolvi me comportar — Tenho 57 anos.

「いやに若いな。」

— Tudo isso? Parece menos.

「へへへへ。」

Eu respondi com uma risada constrangida.

「家族はいくたりだ。」

— Familiares?

「三人。」と答えた。実は独身であるが、今日までの経験で、事実を云うと、いよいよ怪しまれる傾があるので、三人と答えたのである。

— Três — na verdade, eu sou um solteirão, mas já sabia, por experiências anteriores, que essa resposta não agradaria ao guarda.

「三人と云うのは奥さんと誰だ。」巡査の方がいい様に解釈してくれる。

— Três? Você, a mulher e quem mais? — o comissário ia preenchendo as lacunas por mim.

「嚊アとばばア。」

— Eu, a patroa e a velha.

「奥さんはいくつだ。」

— Idade da esposa?

 一寸|窮ったが、四五年前まで姑く関係のあった女の事を思出して、「三十一。明治三十九年七月十四日生|丙午……。」

Por um instante, pensei que estava tudo perdido, que não ia saber responder; mas me lembrei de uma mulher com quem tinha tido um relacionamento, quatro ou cinco anos antes, e pude produzir esta afirmativa:

— Trinta anos. Nascida em Meiji 39, dia 14 de julho. Signo de cavalo, elemento fogo, yang...

若し名前をきかれたら、自作の小説中にある女の名を言おうと思ったが、巡査は何にも云わず、外套や背広のかくしを上から押え、

Bom, a essas alturas, eu estava pensando, se ele agora me perguntar como se chama minha mulher, vou apelar para o nome de uma personagem de um romance meu, mas o policial continuou mexendo nos bolsos do meu casaco e do meu paletó e, pescando algo de lá, interpelou:

「これは何だ。」

— E isto aqui?

「パイプに眼鏡。」

— Cachimbo e óculos.

「うむ。これは。」

— Sei. E isto?

「鑵詰。」

— Um enlatado.

「これは、紙入だね。鳥渡出して見せたまえ。」

— Isto aqui? Ah, uma carteira. Abra aí para vermos o que tem.

「金がはいって居ますよ。」

— Tem dinheiro, ora.

「いくら這入っている。」

— Quanto?

「サア二三十円もありましょうかな。」

— Uns vinte, trinta ienes.

 巡査は紙入を抜き出したが中は改めずに卓子の上に置き、「その包は何だ。こっちへ這入ってほどいて見せたまえ。」

O comissário largou a carteira sem arrumar e passou ao próximo item.

— E essa trouxa, aí? Traga para cá, vamos ver.

風呂敷包を解くと紙につつんだ麺麭と古雑誌まではよかったが、胴抜の艶しい長襦袢の片袖がだらりと下るや否や、巡査の態度と語調とは忽一変して、

Abri o embrulho. Saíram primeiro o pão e as revistas, o que pareceu tranquilizar o guarda. Mas, em seguida, surgiu a manga indecente da roupa íntima de mulher, e a atitude do homem, e sua voz mesmo, mudaram de repente.

「おい、妙なものを持っているな。」

— Carregando objetos suspeitos.

「いや、ははははは。」とわたくしは笑い出した。

Comecei a rir de vergonha.

「これア女のきるもんだな。」巡査は長襦袢を指先に摘み上げて、燈火にかざしながら、わたくしの顔を睨み返して、「どこから持って来た。」

— Isto aqui é roupa de mulher — disse o policial, enquanto me encarava, furioso, erguendo em seguida o pano cuidadosamente, com dois dedos em pinça, e aproximando-o da luz — De onde você tirou isto?

「古着屋から持って来た。」

— De um brechó.

「どうして持って来た。」

— Por quê?

「金を出して買った。」

— Pois, porque comprei, com meu dinheiro.

 巡査は長襦袢を卓子の上に投捨てたなり黙ってわたくしの顔を見ている。

O guarda jogou com nojo o vestido sobre a mesa, e ficou me olhando sem palavras, fixamente.

 

 

NAGAI, Kafû. Bokutô kidan. In: SEKINE, Hidesato (Ed.). Nagai Kafû — Chikuma Nihon bungaku zenshû. Tóquio: Chikuma, 1992. p. 299-303.

Nagai, Kafû. Histórias da Outra Margem. [Por: Andrei dos Santos Cunha]. São Paulo: Estação Liberdade, 2013. (Bokutô kidan). Romance. p. 18-21.

Bibliografia

Traduções Publicadas

Cunha, Andrei dos Santos. Cem poemas de cem poetas: a mais querida antologia poética do Japão. [Por Andrei dos Santos Cunha]. Porto Alegre: Bestiário/Class, 2019. (Ogura Hyakunin Isshu). Conto. Tradução crítica com introdução, notas e biografias dos poetas da coletânea poética do século XIII Ogura Hyakunin Isshu .

Tanizaki, Jun’ichirô. A Ponte Flutuante dos Sonhos seguido de Retrato de Shunkin. [Por: Andrei Cunha; Ariel Lara de Oliveira & Lídia Ivasa. São Paulo: Estação Liberdade, 2019. (Yume no Ukihashi e Shunkinshô). Romance.

Tawada, Yôko. Exofonia do hóspede: poemas de Tawada Yôko. [Por: Andrei Cunha; Michelle Buss & Marianna Daudt]. Remate de Males, v. 38, p. 1-36, 2018. Poesia. Tradução de poemas de Tawada Yôko, seguidos de um ensaio sobre sua poesia e sobre a tradução. Os poemas foram traduzidos em equipe, do alemão e do japonês para o português do Brasil.

Tanizaki, Jun’ichirô. A Gata, um Homem e duas Mulheres seguido de O Cortador de Juncos. [Por: Andrei Cunha, Maria Luísa Vanik, Lídia Ivasa, Tomoko Gaudioso & Clicie Araújo]. São Paulo: Estação Liberdade, 2017. (Neko to Shôzo to futari no onna e Ashikar). Romance.

Nagai, Kafû. Guerra de Gueixas. [Por: Andrei dos Santos Cunha]. São Paulo: Estação Liberdade, 2016. (Udekurabe )Romance..

Nagai, Kafû. Histórias da Outra Margem. [Por: Andrei dos Santos Cunha]. São Paulo: Estação Liberdade, 2013. (Bokutô kidan). Romance.

Inoue, Yasushi. O Castelo de Yodo. [Por: Andrei dos Santos Cunha]. São Paulo: Estação Liberdade, 2013. (Yodo dono nikki). Romance.

Jeffrey, G. & Riley, T. Mitos Africanos. [Por: Andrei dos Santos Cunha]. São Paulo: Scipione, 2012. (African myths). História em quadrinhos. [EN>PT].

Wolf, G.; Rao, S. O Voo da Sereia. [Por: Andrei dos Santos Cunha]. São Paulo: Scipione, 2011. (The flight of the mermaid). Literatura infantil. [EN>PT].

Jeffrey, G. & Felmang, R. Mitos Egípcios. [Por: Andrei dos Santos Cunha]. São Paulo: Scipione, 2011. (Egyptian myths). História em quadrinhos.  [EN>PT].

Jeffrey, G. & Felmang, R. Mitos Gregos. [Por: Andrei dos Santos Cunha]. São Paulo: Scipione, 2011. (Greek myths). História em quadrinhos. [EN>PT].

Sei, Shônagon. O Livro de Travesseiro. [Por: Andrei dos Santos Cunha]. Porto Alegre: Escritos, 2008. (Makura no sôshi). Não-ficção. Memórias, crônicas e ensaios da dama da corte Sei Shônagon (séc. X). 

 

Obra própria

Cunha, Andrei dos Santos. Testemunhos teóricos: a trajetória conceitual de Rita Schmidt. Revista Estudos Feministas, v. 27, p. 1-4, 2019.

Cunha, Andrei dos Santos. A ideia de ideograma e a intermidialidade no Ocidente. Revista Eletrônica Araticum, v. 17, p. 1-15, 2018.

Cunha, Andrei dos Santos. Unidades não submergíveis. In: Neumann, Gerson; Cunha, Andrei Dos Santos; Ferreira, Cinara.; Bittencourt, Rita Lenira. (orgs.). Arquipélagos: estudos de literatura comparada. Porto Alegre: Class, 2018, p. 131-150.

Cunha, Andrei dos Santos & Luz, Cícero Krupp. Weltliteratur e Realpolitik: algumas questões de pesquisa sobre as interfaces entre Relações Internacionais e Literatura Comparada. In: Anais do Congresso Internacional ABRALIC 2018, 2018, p. 1-9.

Cunha, Andrei dos Santos & Rassier, Luciana Wrege. Autonarrativa, cinebiografia e orientalismo em Medo e submissão. In: Cunha, Andrei dos Santos et al (orgs.). Ilhas Literárias: estudos de transárea. Porto Alegre: Instituto de Letras, 2018, p. 26-36.

Cunha, Andrei dos Santos. O Empório e a Enciclopédia: uma abordagem comparatista da enumeração caótica em Sei Shônagon e Jorge Luis Borges. Cerrados, v. 25, p. 6-29, 2017.

Cunha, Andrei dos Santos. O exemplo daquelas mulheres: reflexões comparatistas sobre a literatura de autoria feminina. Fragmentum, v. 49, p. 103-122, 2017.

Cunha, Andrei dos Santos & Indrusiak, Elaine Barros. Serguei no México: Greenaway e a representação pós-moderna do artista queer. Ilha do Desterro, v. 70, p. 221-232, 2017.

Cunha, Andrei dos Santos & Kanashiro, Victor. Suicídio e Política em Tradução: Mishima como um texto brasileiro. Letras & Letras, v. 32, p. 244-266, 2016.

CUNHA, Andrei dos Santos & Kanashiro, Victor. O escritor que perdeu as graças do mercado (mas depois recuperou): Mishima e a norma tradutória brasileira. In: Kikuchi, Wataru (org.). Língua, literatura e cultura japonesa: Comemoração aos 50 anos da Habilitação em Japonês Curso de Letras da FFLCH-USP. São Paulo: Humanitas, 2016, p. 67-105.

Cunha, Andrei dos Santos. Alguns aspectos literários do culto à natureza no Japão. In: Schmidt, Rita & Mandagará, Pedro (org.). Sustentabilidade: o que pode a literatura?. Santa Cruz do Sul: UNISC, 2015, p. 191-210.

Cunha, Andrei dos Santos. O Japão em tradução: textos brasileiros. Tradução em Revista, v. 18, p. 55-70, 2015.

Cunha, Andrei dos Santos. Texto e Têxtil em O Livro de Travesseiro. RevistaCriação & Crítica, v. 15, p. 20-40, 2015.

Cunha, Andrei dos Santos. A literatura japonesa em tradução no Brasil. In: Anais do II Seminário Internacional de Língua, Literatura e Processos Culturais: SILLPRO, Espaço, Território e Região. Caxias do Sul: UCS, 2014. p. 824-832.

Cunha, Andrei dos Santos. Orientalismos Periféricos: Presença Literária do Japão no Brasil. In: Bittencourt, Rita Lenira & Schmidt, Rita Terezinha (org.). Fazeres Indisciplinados: estudos de literatura Comparada. Porto Alegre: UFRGS, 2013, p. 13-25.

Cunha, Andrei dos Santos. Pele, pincel, papel e película: texto, corpo e representação em O Livro de Cabeceira. Translatio, v. 6, p. 180-192, 2013.

Cunha, Andrei dos Santos. Questões de tradução e adaptação em O Livro de Cabeceira. TRADTERM, v. 21, p. 71-95, 2013.

Cunha, Andrei dos Santos. A mulher no centro do cânone: o caso de O Livro de Cabeceira. In: Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura, Brasília, 2012.

Cunha, Andrei dos Santos. O Cineasta, o Filósofo, a Escritora e seu Tradutor: presença do clássico japonês em autores do modernismo e do pós-modernismo ocidental. In: Anais do XII Congresso Internacional ABRALIC, 2011. Curitiba: ABRALIC, 2011.

Cunha, Andrei dos Santos & Oliveira, Ariel Lara. Dazai Osamu em tradução. Cadernos de Tradução, Porto Alegre, n. 41, jul./dez., 2017. Organização de periódico com ensaios críticos e traduções da obra do escritor Dazai Osamu. Diversos tradutores. 

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ISBN:   85-88464-07-1

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